terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sobre o Queermuseu e o fechamento pelo Santander





O assunto do fechamento de uma exposição de arte pelo Santander depois de protestos encabeçados pelo MBL realmente eh um assunto bem polêmico. Tanto da legitimidade da arte em "profanar" elementos religiosos quanto o fato do banco Santander fechar a exposição por conta do pedido de um falso moralismo do MBL.

Penso que a questão eh bem sutil e passa pelo propósito da arte em si e passa também pela onda neoconservadora pseudo-moralista que enfrentamos atualmente no mundo. É bem claro algo que vários sociólogos contemporâneos já apontaram que eh o fato do sujeito hipermoderno ser um sujeito desbussolado. Diante dessa situação qualquer proposta de enfrentamento eh visto por ele como ameaça. Nesse sentido a arte sempre foi confrontativa e por isso ela está respaldada na sua própria função. Freud já nos dizia no seu livro O futuro de uma ilusão (1927) que a arte é uma grande formação substitutiva para as renúncias mais profundas do indivíduo diante da civilização, ou seja, por meio da arte o sujeito sublima suas pulsões sexuais reprimidas dando à sociedade uma identificação proporcionando assim a partilha de experiências emocionais extremamente valorizadas. Essa expressão várias vezes se mostra de forma contestadora e traz para o sujeito algo de si mesmo que havia recalcado. A arte possui um caráter crítico e questionador e dessa forma é algo que várias vezes incomoda o sujeito. Este homem fragmentado, desbussolado, sem amarras da hipermodernidade não lida bem com o confronto, afinal, ele é ensinado para ser "cool", para que nada o destempere. Esse sujeito diante de uma arte questionadora está sempre em apuros.

O fato de símbolos religiosos supostamente terem sido profanados e esse fato servir de estopim para a revolta e critica apenas atesta a hipocrisia social que vive como se deus não existisse, mas "defende" os símbolos religiosos quando convém. Curioso o fato de que vários desses que defendem rigidamente a suposta santidade dos símbolos desconhecem o seu significado. Isso traz elementos interessantes para pensarmos a própria função da religião em uma sociedade hipermoderna. É bem visível para qualquer pessoa minimamente atenta que a religião está em voga nos nossos tempos. Quer sejam os movimentos tipo nova era, espiritualidades orientais, etc., quer seja pelo aumento surpreendente das igrejas neo-pentecostais e movimentos carismáticos católicos, sem contar o aumento de setores extremamente fundamentalistas das religiões católicas e das religiões islâmicas. Esta situação por si só mostra esse lugar espinhoso que a religião ocupa no nosso tempo, ou seja, ao mesmo tempo capaz de produzir vertentes extremamente fundamentalistas e vertentes extremamente lights de si mesma.

A arte e a religião, via de regra sempre andaram juntas, pelo menos desde a idade medieval. Freud no mesmo livro citado acima, e também no seu famoso Mal-estar da civilização (1930) coloca a religião como uma possível formação substitutiva para o sujeito, embora mais calcada na ilusão do que em uma espécie de sublimação como a arte. Dessa forma podemos ver que arte e religião caminham juntas e estão entrelaçadas como criações humanas para de alguma forma lidar com seu desamparo estrutural (no caso de Freud), ou , se lembrarmos de Hegel, como forma de manifestação do espírito absoluto. Mas o que faz essa união de tanto tempo entre arte e religião quer seja de forma conciliadora como na época medieval, quer seja de forma contestadora como aparentemente foi a exposição do Santander gerar tamanha revolta por parte de setores conservadores em dias atuais?

Uma pista para entender essa revolta é um pouco do que comentamos mais acima, ou seja, o sujeito hipermoderno, esse sujeito "cool" não consegue lidar com nenhum tipo de contestação crítica, pois não se ancora em nada a não ser valores extremamente rasos e vazios que não são capazes de oferecer balizas para ele. Quando a crítica da arte aparece a primeira tendência desse sujeito é simplesmente manifestar o ódio diante da sua incapacidade de lidar com esse elemento contestador. Diante da impossibilidade de lidar com o confronto o sujeito nega a possibilidade da arte numa espécie de negação do seu próprio núcleo traumático que provoca mal-estar.

Uma segunda pista é o falso moralismo contemporâneo que se desenvolve rapidamente nos últimos anos como resposta ao mesmo "desbussolamento" do indivíduo que precisa de respostas rígidas para tentar se localizar diante do mundo. Neste sentido a religião acaba sendo o lugar privilegiado onde isso se manifesta uma vez que ela se reveste de um caráter divino e atemporal. Diante disso esse pseudo-moralista contemporâneo se sente como uma espécie de profeta do antigo testamento que anuncia a profanação da religião e para isso faz uso de todo o seu ódio em direção a obra de arte. Curiosamente a religião que se tem em vista aqui é a religião meramente institucionalizada, aquela das construções, dos símbolos fechados, ou seja, extremamente diferente daquela que Tiago (Tg 1,27) chama de "religião verdadeira", ou seja, cuidar dos órfãos, das viúvas, dos que não tem parte na terra, etc., em suma, uma religião de forte apelo social no sentido de mitigar as desigualdades advindas das configurações sociais.

Um outro elemento extremamente interessante é o fato do banco Santander fechar ter fechado a exposição diante dos protestos de um pequeno setor da sociedade representada pelo MBL. É importante não esquecer que o Santander é um dos maiores bancos privados do mundo e obviamente até o seu suposto patrocínio pela arte e cultura não tem nada além do lucro em mente. Longe de ser um propagador isento da cultura, o Santander evidencia diante da sua atitude de fechar a exposição todo o jogo político e econômico que se esconde por trás da chamada "cultura contemporânea". Obviamente que há elementos políticos importantíssimos envolvidos e acordos espúrios para que tal exposição possa ocorrer, de forma que quando uma exposição ferir o establishment a mesma deverá ser novamente fechada. O MBL, esse grupo neofacista composto de jovens de classe média, mas que tem conseguido adesão por parte de muitos cristãos, artistas, líderes empresariais que compartilham de suas ideias, mostra novamente a sua face ideológica ignorante diante dos temas caros à sociedade quando pede o fechamento da exposição e mostra ainda mais sua face ignorante quando propaga ideias violentas contra a exposição tais como pichação no museu, briga com seguranças, etc.

A arte dentro do capitalismo, na maior parte das vezes, não passa de um produto visando gerar lucro para grandes conglomerados econômicos que a patrocinam tentando mascarar para a população a própria noção de produto envolvida na própria divulgação da arte. Dessa forma procura-se vender não um produto, mas uma ideia de que há uma face boa no capitalismo, pois ele promoveria a divulgação da arte. Essa é a ideologia em uma das suas faces mais cruas. O evento em questão se torna extremamente ambíguo, pois um grupo que se auto denomina "liberal" (Movimento Brasil livre) se coloca de maneira extremamente conservadora diante da arte que, por excelência, manifesta a liberdade do espírito humano. Esse paradoxo é o paradoxo típico da nossa sociedade hipermoderna, pois os dois lados não se mostram como opostos, mas dialeticamente embricados em uma espécie de negação da negação incapaz de gerar uma síntese viável, mas sempre recaindo novamente em novos obscurantismos.