sábado, 8 de fevereiro de 2014

Deus e a Amizade - Uma proposta teológica







Sempre haverá dias piores que outros. Feliz é aquele que durante as inúmeras tormentas da vida pode ser acompanhado por amigos.

Mesmo que a tormenta pareça não passar nunca, ainda assim a presença desse outro, (ou desses outros) fará com que a a água que cai não fira como canivete cortante, mas seja vista como um possível refrigério para o corpo e para a alma abatida.

Os amigos às vezes me lembra a figura judaico/cristã de Deus. Eles trazem a existência coisas que não existem. Do nada eles dizem: "Haja luz" e o mundo antes "sem forma e vazio" se transforma em possibilidades, em vida, etc.

A chuva que castigava se transforma em orvalho que rega
O vazio se preenche pela palavra da esperança
As trevas se dissipam pela chegada da luz

Tudo isso pelo simples poder da palavra. Talvez daí possamos entender um pouco as palavras dos salmos reproduzidas pelo Cristo, "sois deuses". O Deus que conheço acaba por remeter a esse outro que age como quem cria, que tem no momento uma esfera de ação maior que a minha, mas nem por isso me abandona ou age como os deuses de Epicuro que estão preocupados apenas com seus afazeres.

Esse deus se assemelha muito mais ao "Deus dançante" de Nietzsche, ao deus "pai que ama" do Cristo. Deuses dispostos a caminhar conosco, dançar conosco, chorar conosco, dispostos a nunca nos abandonar por mais difícil que seja a caminhada.

Talvez isso seja o mais próximo que consigo pensar sobre Deus hoje. Um deus que se faz presente não como "entidade metafísica", mas como ser que caminha, que dança comigo. Penso que Jesus ao dizer "não vos chamo mais servos, mas amigos" propunha subverter a relação imaginária proposta pelos discípulos em relação a ele. A proposta estava agora não mais pautada em uma subserviência pautada no medo/culpa, mas em uma relação baseada na igualdade entre as partes. A distância antes tão marcada é mitigada na relação da amizade.

Mostrando esta dimensão da amizade, Jesus propõe uma nova visão sobre Deus. Não o Deus projeção do pai severo, mas Deus como ser próximo que caminha comigo, um deus que por isso sempre está comigo, que permite ao salmista dizer que "ainda que ande pelo vale da sombra da morte" ele não temerá mal algum.

Em Jesus realmente Deus se encarna, torna-se homem, mas não penso que isso seja do ponto de vista literal. Penso que Deus se humaniza na figura do Cristo, e a partir dessa humanização, ele nos mostra que somos capazes sim de vivermos com Deus  não de uma forma distante, mas de forma próxima. Dessa forma, Deus não se torna mera projeção humana como propunha Feuerbach, nem ao mesmo tempo uma entidade metafísica distante. Penso que na proposta do Cristo, Deus se torna esse amor que nos move em direção ao outro, pois vemos nesse outro um pedaço desse Deus perdido tipificado na história do Éden.

Talvez a amizade, além de ser uma condição para a vida feliz como já nos dizia Aristóteles, seja um bom paradigma para pensarmos a relação homem/Deus. Fica aqui talvez uma proposta teológica...