segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O dízimo e sua função social - Parte 4




 A utilização dos versículos de Malaquias nas igrejas evangélicas

O versículo, na maioria das vezes, é usado nas igrejas de forma errada, colocando de tal forma que o não trazer o dízimo é abrir uma porta para que a maldição chegue a casa deste que não o dá.
O que se faz é colocar um julgo enorme sobre a vida daquele que não dizima, fazendo com que este o faça por medo e não por princípio. Sob o nome de uma falsa obediência ao “princípio do dízimo” está o fardo de contribuir para a instituição religiosa a qual o indivíduo pertence. Não estou aqui sendo contra a contribuição financeira em instituições religiosas. O erro está em se atribuir a Deus a necessidade do dinheiro, uma vez que a necessidade é humana.

A instituição religiosa realmente precisa de dinheiro para pagar contas, funcionários e outros gastos que se fazem necessários, no entanto, o “clamor” pelo dízimo deveria ser feito evidenciando o real motivo do dízimo, e não criando um misticismo onde Deus é aquele que precisa do dinheiro, e quem não der será punido com “devoradores, migradores, cortadores e destruidores”, é aí que se encontra um erro grave ao se falar em dízimo  atualmente. Esse erro é de ordem prática, mas há outro erro que pode ser dito “bíblico” que é a total negligência do concílio de Jerusalém descrito em Atos 15, onde ficaram definidas quais as diretrizes deveriam ser passadas aos gentios. Dentre estas recomendações o dízimo não figura.Esta passagem é totalmente negligenciada pelos líderes hoje em dia que insistem em colocar o dízimo como lei e que por isso deve ser seguida. Mas pode-se ver que o dízimo não se encontra entre as recomendações feitas pelos apóstolos aos gentios.

Fica evidenciado na prática de alguns líderes em relação ao dízimo, que o que é feito é um “self-service de leis”, onde as leis do AT que são convenientes são mantidas e as outras são totalmente negligenciadas sob o pretexto de serem apenas “culturais” e não podem ser tomadas literalmente.
Essa relação do dízimo como lei que deve ser mantida em detrimento de outras, apenas evidencia essa prática que visa à conveniência.
Como a igreja não pode abrir mão da renda, ela coloca sobre o membro a responsabilidade de mantê-la e o faz colocando sobre ele um fardo e uma promessa de punição se não fizer a sua parte.
Por medo da punição muitos dizimam, no entanto, eles estão novamente se atendo à forma da contribuição e esquecendo-se do princípio assim como os israelitas faziam.

No entanto, essa prática é muito interessante para a instituição que com isso se mantêm a custa de um sofrimento psicológico do membro que está, portanto, sempre com medo de que algo aconteça a ele.
O dízimo como já foi dito no início visa muito mais que a forma, visa o coração do homem, visa a mente do homem, uma vez que é uma forma dele se lembrar de Deus que lhe concedeu todas as coisas,  visa o psicológico do homem uma vez que deve ser motivo de alegria o fato de ver que Deus tem suprido as necessidades e visa o social do homem, uma vez que o dízimo se destina a todos aqueles que não têm parte na terra.

Com a institucionalização da fé, o que aconteceu foi que esses princípios foram esquecidos e a forma foi exaltada. O exterior é que importa, e não mais o interior. Isso em termos bíblicos é totalmente vazio, uma vez que Deus olha o coração do homem e não apenas o que os seus atos dizem.
Alguns líderes afirmam durante suas orações que não se trata de uma negociação, mas que apenas estão requerendo o que diz a palavra de Deus no tocante aos dízimos e ofertas.
No final, o que se vê é uma relação onde o fiel dá o dízimo e em troca, quer receber as bênçãos de Deus. Neste contexto, aquele que não contribui é visto como quem está "roubando de Deus", ao passo que, como foi dito, o Deus roubado não é o Deus metafísico, mas o Deus que se revela nos que não têm parte na terra.
Esta acusação feita pelos líderes é imoral e anti-bíblica. Como Paulo afirma em Romanos, "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus." (Rm 8:1) Tendo em vista isto, pode-se ver que o aspecto coercitivo do dízimo está longe de promover uma obediência por parte do fiel, mas provoca um medo de que "o Deus retribuidor" venha a lhe punir com “pragas e gafanhotos”.

Esta apropriação do gafanhoto como um demônio que ataca quem não dizima é uma apropriação indevida no tocante a uma hermenêutica e a uma exegese bíblica. A figura do gafanhoto exposta no texto é mais bem entendida se tomada em seu sentido literal, uma vez que a cultura agrícola era predominante na época da reconstrução do muro.
Não há, portanto nenhuma alusão no texto de Malaquias ao gafanhoto sendo entendido como um demônio, ou uma entidade, ou algo que atacará àquele que não dizimar.

O dízimo, portanto, ao invés de servir como agente modificador da sociedade por meio do dom da partilha está servindo (em várias igrejas evangélicas) como aspecto coercitivo para que o fiel contribua com uma instituição.A institucionalização do dízimo retira deste o seu caráter social e o coloca como um imposto. Mas não simplesmente um imposto, mas um imposto que é colocado por Deus sob a condição de amaldiçoar quem não o pagar. Esta perda do sentido do dízimo pode ser vista todo domingo na maioria das igrejas evangélicas. Não nego o fato de que a instituição tem despesas, funcionários a pagar, coisas que precisam ser consertadas e outros tipos de serviço que qualquer "empresa" possui e o dinheiro é o que fará com que estas necessidades sejam sanadas. Não há aqui uma crítica à contribuição por parte do fiel. O que deve ser questionado são as motivações que o levam a contribuir.

O que se vê, é que a maioria dos fiéis contribui por medo de serem castigados por Deus, e é isso que deveria ser mudado dentro da igreja evangélica. As necessidades físicas da igreja são visíveis e é papel do membro que a freqüenta contribuir para que elas sejam sanadas. O erro está em atribuir a Deus uma necessidade que é institucional. Apelar para Deus como aquele que pede, e colocar a igreja como "gazofilácio" Dele.
A contribuição, portanto é necessária. Mas ao invés de coagir o povo a dizimar, o que deveria ser feito é ensinar o povo a ofertar, a usar da liberdade e da liberalidade para promover as melhorias na instituição.

Não se deve atribuir a Deus uma cobrança que é meramente institucional. Ao se postular hoje que quem não dá o dízimo rouba de Deus (metafísico), diz-se duas coisas:
1- Que a proposição de Paulo em Romanos 8:1 não faz sentido, ou que não é mais aplicável;
2- Que ainda se quer viver dentro do regime da lei e da doutrina da retribuição.

A opção pela lei do dízimo como algo aplicável na igreja hoje evidencia um "self-service de leis". Dentro do corpus bíblico, o que se faz é selecionar as leis que são mais convenientes e aplicá-las em favor da necessidade imediata da instituição. No entanto, o que se pode notar é que o dízimo também só deve valer para os judeus, uma vez que no concílio de Jerusalém, a instrução dos apóstolos sobre quais preceitos os gentios deveriam seguir não incluem entre eles o dízimo.

Por que então se dá ao dízimo um estatuto para além da lei, e em relação a outras leis elas só servem para os judeus? A resposta a que se chega é a questão da conveniência. O que é conveniente para a instituição é preservado sobre o pretexto de ser a vontade de Deus que tal coisa seja como é, e as outras são abandonadas sob o pretexto de serem específicas para um povo específico, a saber, os judeus.
Essa diferenciação, no entanto carece de explicação não podendo ser pautada meramente na conveniência. Como esta explicação não encontra uma base sólida, ela se apóia na convicção de quem detém o poder na instituição.

O líder da instituição (neste caso, o pastor) é quem irá definir o que vale ser tomado como lei e o que não vale. Mediante o seu entendimento da bíblia, uma lei do AT poderá ser aceita ou não na igreja.
Como o despreparo por parte dos pastores em várias igrejas é grande, o que se vê são inúmeras igrejas com doutrinas e hábitos muito questionáveis.

A questão do dízimo é apenas uma das questões que precisam ser revistas dentro das igrejas cristãs. Isso implica em uma hermenêutica voltada para o esclarecimento da questão, bem como de um maior preparo por parte dos líderes das igrejas para promoverem esse esclarecimento. Como essa revisão geraria um maior esclarecimento da comunidade onde a ideologia dominante a massacra em nome de Deus, isso não é incitado pelos próprios líderes que se verão perdendo o seu poder de dominação quando o povo começar a pensar. É interessante ressaltar como Cristo fazia com seus discípulos incitando-os a pensar sobre a lei, a pensar o papel individual deles no projeto divino e a refletir sobre o que significava tudo aquilo que estava sendo falado. Ao perguntar para eles: “E vocês, o que dizem que eu sou?” Jesus está incitando-os a pensar, a refletir no real motivo do porquê eles estão fazendo aquilo que estão fazendo.
Jesus sabia da importância de se refletir sobre as ações, bem como o que uma mente esclarecida seria capaz de fazer pela comunidade.

A fé sem reflexão é fanatismo, a fé meramente imposta não modifica a sociedade, não modifica a comunidade onde o membro se encontra. Pensar a fé é pensar a prática cristã, é pensar as minhas atitudes dentro da igreja e tentar entender o porquê ajo como ajo. Essa prática deve atingir todos os setores da igreja; desde o líder de onde vêm as diretrizes até o membro que às vezes simplesmente obedece sem mesmo questionar o líder sobre o real sentido da ordem ou da prática.
A igreja evangélica precisa repensar suas práticas e carece de mudanças urgentes. A meu ver, isso só acontecerá quando nos voltarmos para a Bíblia e a interpretarmos de uma maneira coerente com os princípios ensinados por Jesus; não mais pautando nossas ações em conveniências, ou em práticas irrefletidas. Meu desejo é que consigamos trilhar esse caminho.







Com esta quarta parte chegamos ao fim desta série de  publicações sobre a questão dos dízimos. Tentamos fazer um percurso histórico dentro do texto bíblico e nesta última parte abordar como que a igreja evangélica se apropria (várias vezes de forma perversa) da questão do dízimo. Espero sinceramente que o texto tenha servido para pensarmos sobre esta questão.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Dissimulando...






Sim, eles sabiam que algo não estava bem. Que o passado tão belo de cumplicidade, compartilhamento, risos e esperanças já não mais existia, ou se existia já não era nem de longe o que costumava ser. No entanto, eles fingiam que nada acontecia. Levavam a vida como qualquer outro casal. Na monotonia do dia-a-dia vivendo seu compromisso já sem muito sentido.

As conversas antes tão profícuas foram substituítas por mensagens de celular. Eles tiham amigos mais interessantes no Whats app, no facebook, nos inúmeros jogos online que faziam com que os momentos juntos fossem facilmente transformados em mera presença física. A vida online se tornou mais interessante que a offline, e isso é sempre um perigo para a vida offline.

Tá certo, um precisava do outro, já tinham se acostumado com a presença do outro. Já fizeram muitas coisas juntos, não queriam perder também o resto da cumplicidade que tinham. Eles tinham bons momentos que às vezes compensavam, mas no geral a coisa não estava boa. O diálogo sobre a situação sempre era adiado, afinal ningúem queria tocar na ferida e revelar coisas não tão belas e amáveis assim. E por isso eles viviam como se nada estivesse acontecendo. Às vezes algo de ruim acontecia e exigia o apoio mútuo. Nestes momentos o amor reacendia, a cumplicidade reaparecia, mas era só a coisa resolver e tudo voltava a mesma monotonia de outrora.

Será que um relacionamento pode ser alimentado apenas por tragédias? Será que elas serão sempre necessárias para as coisas persistirem por mais 6 meses? E se for assim, o casal torcerá pelas tragédias? Quererá que elas aconteçam sempre? Faz muito pouco sentido.

Alguns momentos felizes desviavam a atenção para o que importava. Por isso eles sempre procuravam os momentos felizes capazes de dissimular aquela situação.

"Quem sabe se repetirmos ad infinitum pequenos momentos felizes não faremos nossos problemas mais sérios desaparecerem?" - Eles pensavam -

Obviamente, ambos sabiam que isso não funcionaria, eles sabiam que o seu destino, se nada fosse feito, seria a dissolução daquilo que parecia tão sólido. Apenas os amigos mais próximos sabiam disso, mas nem estes amigos se atreviam a tocar no problema, afinal a ignorância demonstrada pelo casal dava um ar de esperança para os próximos, e os próximos gostariam que eles permanecessem juntos mesmos sabendo que o fim provavelmente já estava a caminho.

Ah vida infeliz daquele casal !

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Diante da fadiga





Diante do caos que assola o homem, o que pode ele fazer exceto esperar?
O que lhe é dado como alternativa diante daquilo que não se tem controle?

Quando há uma esperança de algo, que seja apenas uma mero fio de luz no fim do túnel, ainda cabe a ele almejar algo que se concretizará, mas quando tudo some, quando aparentemente todas as portas fecham, tudo parece desvanecer em um labirinto sem fim.
Como quem cai infinitamente, da mesma forma as esperanças vão se ruindo uma a uma. Os planos antes tão firmes se desvalecem como quem não tem mais onde ancorar. Como em um túnel escuro onde só se dá voltas e mais voltas com o passar do tempo sem nunca sair dele, assim caminha esse homem que não vê perspectiva de mudança.

- "Você deve acreditar em Deus, confiar que Ele sabe o tempo de todas as coisas" - Dizem várias vezes os mais confiantes. Como bons estóicos que acreditavam que tudo estava nas mãos de uma razão universal e o melhor que fazemos seria submetermos a ela. Não que estejam errados, no entanto isso também não conforta, não resolve o problema dos que habitam o labiritno do qual não vêem saída.

Talvez seria mais fácil fingir que os problemas não são tão problemas assim. Fingir que faço o que é certo, fingir que acredito nesse avanço que todos afirmam esteja acontecendo. Tudo seria tão mais fácil. Mas feliz ou infelizmente não é assim. O poço escuro continua sendo o destino aparente de todos os que perdem a esperança nas coisas. O cansaço assola, a falta de esperança sobressai, a mente não pára, mas tudo infrutífero, nenhum pensamento conduz a um bom caminho, apenas a espera infindável diante de um futuro incerto.

E nesse cansaço infinito o homem caminha. Perto de todos, longe de todos. Ninguém vê que este homem enquanto sorri sofre esperando tal futuro incerto. Afinal, o mundo não pára, as necessidades economicas, sentimentais, espirituais continuam urgindo e ele nada consegue fazer para acalmar os demônios alheios nem mesmo os seus próprios. O que resta a ele senão continuar caminhando no caminho sem sentido que sua vida tomou? Tentar resolver os problemas na medida em que vão aparecendo? Viver como se a vida fosse só isso? O que resta a ele se não isso?

- Mas caminha para onde?
- Quer o quê ?

Em meio ao cansaço até as perguntas básicas não encontram respostas e resta só a escuridão de quem cai indefinidamente.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O dízimo e sua função social - Parte 3




Os versículos de Malaquias 3:8-12

"Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. Vós sois amaldiçoados com a maldição; porque a mim me roubais, sim, vós, esta nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós tal bênção, que dela vos advenha a maior abastança.
Também por amor de vós reprovarei o devorador, e ele não destruirá os frutos da vossa terra; nem a vossa vide no campo lançará o seu fruto antes do tempo, diz o Senhor dos exércitos.
E todas as nações vos chamarão bem-aventurados; porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o Senhor dos exércitos." ( Bíblia Sagrada - Tradução de Almeida corrigida e revisada Fiel)

"Pode um homem roubar de Deus? Contudo vocês estão me roubando. E ainda perguntam: ‘Como é que te roubamos? ’ Nos dízimos e nas ofertas.
Malaquias 3:8
"Pode um homem roubar de Deus? Contudo vocês estão me roubando. E ainda perguntam: ‘Como é que te roubamos? ’ Nos dízimos e nas ofertas.
Malaquias 3:8
"Pode um homem roubar de Deus? Contudo vocês estão me roubando. E ainda perguntam: ‘Como é que te roubamos? ’ Nos dízimos e nas ofertas.

Vocês estão debaixo de grande maldição porque estão me roubando; a nação toda está me roubando.

Tragam o dízimo todo ao depósito do templo, para que haja alimento em minha casa. Ponham-me à prova", diz o Senhor dos Exércitos, "e vejam se não vou abrir as comportas dos céus e derramar sobre vocês tantas bênçãos que nem terão onde guardá-las.

Impedirei que pragas devorem suas colheitas, e as videiras nos campos não perderão o seu fruto", diz o Senhor dos Exércitos.

"Então todas as nações os chamarão felizes, porque a terra de vocês será maravilhosa", diz o Senhor dos Exércitos.
Malaquias 3:8-12
"Pode um homem roubar de Deus? Contudo vocês estão me roubando. E ainda perguntam: ‘Como é que te roubamos? ’ Nos dízimos e nas ofertas.

Vocês estão debaixo de grande maldição porque estão me roubando; a nação toda está me roubando.

Tragam o dízimo todo ao depósito do templo, para que haja alimento em minha casa. Ponham-me à prova", diz o Senhor dos Exércitos, "e vejam se não vou abrir as comportas dos céus e derramar sobre vocês tantas bênçãos que nem terão onde guardá-las.

Impedirei que pragas devorem suas colheitas, e as videiras nos campos não perderão o seu fruto", diz o Senhor dos Exércitos.

"Então todas as nações os chamarão felizes, porque a terra de vocês será maravilhosa", diz o Senhor dos Exércitos.
Malaquias 3:8-12


Os versículos que serão trabalhados são os mais usados nas igrejas evangélicas na hora do dízimo e das ofertas. O tom das palavras de Malaquias são bem rudes e incisivas no tocante as questões dos dízimos e das ofertas. No entanto, é preciso compreender o uso desse tom por parte do profeta.

O livro de Malaquias é situado na época de Neemias e da reconstrução do templo pelos israelitas .
As palavras de Malaquias começam no versículo 8, chamando aos israelitas de ladrões porque estavam roubando a Deus nos dízimos e nas ofertas e por isso estavam sobre grande maldição. O profeta então conclama a todos para trazerem todos os dízimos à casa do Senhor para que houvesse mantimento (grifo meu)  na casa de Deus e incita o povo a fazer prova de Deus e Ele os abençoaria, impediria que as pragas chegassem até o povo e as nações os considerariam felizes.

Pode-se notar que todo o livro de Malaquias é de uma entonação mais veemente. A meu ver, esta entoação se deve ao fato da geral mudança pela qual passa o povo de Israel e pela total falta de referência que o povo estava passando neste momento de sua história.
O povo acaba de voltar do exílio e começa a reconstruir uma cidade completamente destruída. A maioria dos referenciais de Israel tinha se perdido ao saírem de sua terra. Outros valores foram adquiridos por eles, outra cultura novamente os influenciou. Os pilares, estão frouxos, a referência, é, portanto, necessária.
E para se estabelecer os pilares é preciso que as bases estejam bem firmes, e para isso, as regras precisam ser claras, não podem deixar dúvidas. Em Malaquias 2:16, Deus afirma pela boca do profeta “Eu odeio o divórcio”. Se consultarmos a lei mosaica vê-se que o divórcio era permitido na lei. Em nenhuma parte da lei, a questão do divórcio é colocada de forma tão incisiva quanto o é em Malaquias.
Esta necessidade de definir as coisas, portanto se insere num contexto de uma mudança radical e, portanto significativa do povo de Israel.

Ao falar da questão do dízimo o que Malaquias deixa bem claro é que todos os dízimos deveriam ser trazidos a casa do Senhor (Vê-se que aqui já existe a figura do templo envolvida como um lugar ao qual devem ser trazidos os dízimos. Este deveria ser entregue no local determinado por Deus, que poderia variar, uma vez que o povo estava no deserto indo para a Terra Prometida. Embora o templo já estivesse construído, a instrução do Senhor foi dada para o povo levar o dízimo ao local que Deus o determinasse), para que houvesse mantimento na casa de Deus.

Os dízimos em Malaquias visavam o mantimento no templo, que mais uma vez recai na figura daqueles que não têm parte na terra.A figura do templo é de extrema importância para entender em que o povo estava roubando a Deus. Não trazendo os dízimos e as ofertas, aqueles que dependiam do templo estavam sendo roubados da parte que cabia a eles. A admoestação de Jesus cabe aqui “O que vocês deixaram de fazer a um destes pequeninos a mim deixaram de fazê-lo” (Mt 25:45), neste sentido, o povo estava roubando de Deus, uma vez que privavam os que não tinham parte na terra de receber aquilo que Deus tinha instituído que seria a parte deles.

Assim, ao roubar o pequenino o homem roubava de Deus. Não trazendo o dízimo à casa de Deus, aqueles que deles dependiam passavam necessidade. O que está em jogo em Malaquias é o princípio da igualdade social.

Isso fica bem claro quando o profeta afirma que o dízimo deveria ser trazido para que houvesse mantimento.
É a figura da pessoa que está em jogo no texto de Malaquias não é a instituição “templo”. O mantimento é para aqueles que não têm parte na terra. O órfão, a viúva, o levita e o estrangeiro precisavam desse mantimento e estavam sendo roubados pelo povo.

Deus promete uma recompensa (uma vez que a doutrina da retribuição é a teologia vigente, o profeta não pode falar além daquilo que ele mesmo experimenta) para aqueles que trouxessem o dízimo. Deus impediria que as pragas chegassem às suas colheitas e as videiras nos campos, não perderiam os frutos, e as nações os chamariam felizes porque a terra seria maravilhosa.

Por que a terra seria maravilhosa? Porque a justiça estaria sendo revelada a partir da obediência ao princípio da igualdade social através do dízimo.

Analisando os versículos de Malaquias, nota-se que a questão implícita novamente recai sobre àqueles que não têm parte na terra. Só quando as rendas fossem justamente distribuídas é que as nações os iriam reconhecer como felizes. [...]


No próximo texto terminamos nossa reflexão sobre a questão do dízimo abordando como a igreja institucional se apropria desta questão, várias vezes de forma perversa.





sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Pequena reflexão sobre Eclesiastes 7:14






No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele. (Ec 7:14)


Não há dúvidas para qualquer leitor do texto bíblico que o Deus retratado ali é um Deus que exulta, um Deus que sorri, que olha com bons olhos para todos aqueles que se colocam diante dele com um coração sincero. Essa face de Deus visível ao homem nem sempre é enfatizada nos cultos nas diversas igrejas, mas geralmente se dá uma ênfase muito grande no "Deus que tudo vê" como um grande olho pronto para devorar àquele que não faz o que seria correto. 

Esquece-se que Deus é um Deus que ouve antes de ser um Deus que vê. Se pensarmos na criação como descrito no livro de Gênesis percebemos que Deus diz o mundo antes de vê-lo, só depois que a palavra é dita e ouvida, esse Deus vê que tudo é bom. Os ouvidos estão sempre atentos, mas não para procurar algo para nos incriminar pela boca, mas atentos à oração, esta prática tão cara à toda religião. Uma tentativa do homem entrar em contato com o divino, expressar-se como um ser capaz de mobilizar algo em Deus. Talvez aqui esteja uma grande limitação da doutrina da providencia divina. Se esta é verdadeira, a oração perde seu sentido. Se tudo está determinado, a oração não passa de mero dizer ao vento onde esperar uma resposta não faz o menor sentido. A voz que pede tem de volta apenas o silêncio de quem já tem tudo determinado.

Um dos textos que deixa essa face de Deus mais clara na minha opinião é o livro do Eclesiastes. O autor do texto enfatiza uma vida onde Deus se faz presente em todos os momentos da vida. Mesmo na vida caracterizada pela inutilidade é possível ver Deus agindo por meio das pequenas coisas. Mas não um Deus etéreo, distante, controlador, mas um Deus que celebra a vida, e vê nela um fim último. 

É sempre bom lembrar que no discurso do Eclesiastes não há a noção de ressurreição. O texto escrito por volta do século II a.C desconhece esse conceito, ou seja, o que impera na visão do Eclesiastes é a estrutura judaica de que a morte é o fim de todas as coisas. Depois dela não há nada a ser feito, e se é assim, a vida deve ser vivida da melhor forma possível, e Deus se fará presente de forma última na dinamica desta vida. 

O apelo do Zaratustra de Nietzsche "Amigos, mantenham-se fiéis a esta terra" é compartilhada pelo Eclesiastes que vê na vida terrena o lugar por excelencia da manifestação do divino. O divino que não se revelará como algo alheio e distante, mas se revelará na alegria exultante das coisas simples. Talvez daí seja possível ao Eclesiastes louvar a alegria depois de constatar a inutilidade das diversas obras que se fazem debaixo do sol e ao mesmo tempo afirmar que para o homem nada há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se 
(Ec 8:15). E se realmente é assim, resta ao homem viver a vida que lhe é dada por Deus da melhor forma possível, reconhecendo-O como aquele que não determina as coisas, mas permite que tudo aconteça da mesma forma a todos, quer ímpios, quer justos (e aqui vê-se claramente uma negação completa a toda doutrina da retribuição descrita desde o Deuteronomio segundo a qual Deus pune os maus e recompensa os bons), afinal "o tempo e o acaso ocorrem a todos" (Ec 9:15). 

O sábio para o Eclesiastes é aquele que percebe a dinâmica evidenciada acima, e então pode se alegrar no dia da alegria e no dia da adversidade ver que Deus fez tanto um quanto o outro, o que o faz perceber que "a realidade está bem distante e é muito profunda  (Ec 7:24) e, portanto,  nunca conhecerá de fato ela toda, nem mesmo todos os seu dias, mas percebe que nem por isso deve deixar de fazer sempre o melhor na única vida que lhe foi dada. A consciência da limitação permite se lançar na vida abertamente, e apenas quando a vida se torna um fim último é possível desfrutar a vida como graça, como dom gratuito, mesmo a vida permanecendo sem sentido.