domingo, 29 de dezembro de 2013

"Que grande inutilidade. Diz o mestre. Que grande inutilidade! Nada faz sentido! " Ec. 1:2






Não há muito para dizer. O que há são apenas sentimentos confusos, buscas inacabadas, pensamentos esparsos, desilusões criadas em meio a uma vida semi-agitada. De nada adianta tentar verbalizar o sofrimento diante do mundo que tanta coisa tem para acontecer. É como se tudo fizesse tão pouco sentido que o que resta é apenas a dor no peito, o aperto no coração, o desejo quase que perene de algo sobre o qual também não sou capaz de dizer o que seria.

Sempre podemos cair na tentativa de comparar sofrimentos e dizer que temos motivos de sobra para estarmos gratos (coisa que realmente é verdade), mas nada disso serve para aplacar o sofrimento, a dor dilacerante de uma angústia sem sentido. É como se durante esta angústia a única coisa que importasse fosse esse objeto que insiste em se fazer presente, martelando cada vez mais forte em sua cabeça, formulando as mais impossíveis conjecturas só para sua cabeça manter o ritmo de pensamento.

Diante desta tentativa de ordem no caos o que se obtém é nada além de cansaço e mais angústia. É como se todo o seu esforço resultasse em nada mais que apenas distrações e nunca alcançasse a raiz do problema. Todas as coisas ainda estão lá. Sussurrando, debatendo, conjecturando em sua mente. Nenhuma delas acontece, elas apenas estão lá.

À medida que os objetivos vão se perdendo, pouca coisa resta para aplacar a desilusão. Sempre podemos olhar para trás e buscar conforto naquilo que já fomos para vermos o quanto caminhamos até o momento, mas isso muito pouco ajuda pois os olhos sempre estão à frente do corpo. O olhar para frente é sempre o mais natural, e na maioria das vezes só olhamos para trás quando queremos algo que estará à nossa frente. Esta busca pelo passado como forma de valorização do nosso lugar atual parece um tanto quanto falsa, embora tenha um teor de verdade. Olhamos para trás como quem busca uma esperança. A esperança que sempre é tomada como algo para frente, neste caso se encontra olhando para trás.

Mas e quando nem mesmo a esperança vem quando olhamos para trás? Quando não encontramos nada além de meros fatos que podem até trazer alegria, mas não passam de pequenas memórias que não nos motivam em nada?

O que resta para nós diante destas coisas?




terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Os Reis Magos, o Símbolo, a Simplicidade



Ouro, incenso e mirra. 

Símbolos da realeza, mas também símbolos de uma jornada que só é possível quando se faz juntos. 
Símbolos de uma caminhada rumo a um destino desconhecido, símbolos de uma fé pura que não precisa de nada mais que um mero brilho de uma estrela para que algo faça sentido. 

Símbolos que remetem a uma grande aposta em direção ao desconhecido e é recompensada com um compartilhar de momentos de alegria e felicidade. 
É recompensada com a vista de um simples menino deitado em uma manjedoura com seu pai e sua mãe ali sem muito a oferecer. 

"Um menino vos nasceu". Algo tão simples, tão corriqueiro, mas que ganha uma dimensão completamente diferente para os que creem. 

A simplicidade da recompensa nos remete ao fato de que talvez nem precisasse de uma recompensa para que a caminhada fizesse sentido. 
A travessia rumo a esse algo prometido já era o suficiente. 

Agora, o encontrar o menino deitado na manjedoura, encontrar o símbolo da salvação de Deus vinda aos homens no final de uma jornada pelo deserto é mais do que qualquer viajante poderia esperar.
O que resta a fazer senão depositar os presentes perante a manjedoura ? 

Ouro, incenso e mirra. Símbolos que podem ser deixados, pois os magos encontraram o que tanto procuravam. 
Diante do Sentido o símbolo se esvai e tudo ganha nova dimensão. Os magos saem diferentes, o mundo está diferente. 


Feliz Natal !

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Ainda sobre Isaías 41:10 - Um pouco sobre o conceito de justiça aplicado a Deus.





Ainda pensando no texto de Isaías 41:10 percebemos que o deus que fortalece e ajuda, o faz, fazendo uso da justiça. O conceito de justiça é bastante complicado , pois traz a tona uma série de discussões tanto filosóficas quanto teológicas.  Ainda mais sabendo que a justiça de deus não é a justiça dos homens, tal conceito entra em um terreno árido e o diálogo se torna bastante complicado. Obviamente que o intuito aqui não é definir o que seria justiça, nem muito menos abordar a questão do ponto de vista nem teológico e muito menos filosófico.

O que podemos dizer da justiça de Deus? Geralmente o que vemos é puro antropomorfismo aplicado à Deus. Esquecemos que o relato mais claro da justiça de Deus se faz presente na fala do Cristo que nos diz: "Nem eu tão pouco te condeno, vá e não peques mais". Esta justiça que não visa nada em troca, que perdoa os pecados gratuitamente, que não gera débito e que ainda é oferecida universalmente, é algo raramente associado como ideal de justiça divina. A imagem que geralmente ouvimos por aí é de um Deus que cobrará todo o bem e todo o mal no final fazendo com que a vida do "servo" seja realmente a vida de um "servo sofredor", para usarmos a paráfrase de Isaías 53. A vida do homem passa a ser a vida de um eterno devedor que nunca terá como pagar aquilo que deve.

A justiça vinculada à graça subverte o nosso conceito de justiça e por isso é melhor pensarmos em um Deus que no final será o justo juiz. Coisa interessante que ouvimos por aí é a aquela história de "Deus é amor, mas também é justo". A noção de adversidade é tão nítida que parece ser impossível vincularmos de forma aditiva a noção de amor e justiça. É como se a idéia de "Deus corrige a quem ele ama", fosse a regra para pensarmos a noção de justiça para com Deus.

Mas não será a correção de Deus uma atitude de graça para com a pessoa que permite que ela faça de forma diferente aquilo que ela fez?

É como se naquele "vá e não peques mais", estivesse o auge da justiça divina que vê o homem como falho, mas ao mesmo tempo permite uma nova chance, não encerrando cada ação como última, mas abrindo a possibilidade para o novo sempre. A justiça aqui se liga ao amor, se liga à liberdade, se liga à autonomia do homem de fazer e refazer suas ações.

Deus é amor e é justo, e só é justo porque ama. Prefiro pensar a justiça de Deus mais vinculada ao amor do que à punição. Prefiro pensar em um Deus que nos dá outra chance do que pensar em um que anota os erros e acertos em um caderno para depois cobrar tudo no final.
Um deus que possui um caderninho onde anota as dívidas e os acertos é um deus capaz de barganha. Talvez por isso esta ideia deste deus "dono do armazém" seja tão aclamada por vários pregadores em tantos lugares. Se este deus é capaz de barganhar, então é possível que eu possa fazer algo para que ele me conceda o que peço, ou quem sabe Ele verá que eu fui um "bom menino" e me dará aquilo que eu preciso.

As palavras do Eclesiastes que diz "há justo que perece na sua justiça, e há ímpio que prolonga os seus dias na sua maldade" (Ec. 7:15) soam estranhas a um sujeito que lida com um Deus que barganha.  O que o Eclesiastes evidencia neste pequeno fragmento é algo que vemos todos os dias, ou seja, que as coisas nem sempre funcionam como achamos que elas deveriam funcionar, e nem por isso elas estariam "fora" da justiça divina, embora seja  muito mais simples pensar em um Deus que recompensa quem faz o bem e pune quem faz o mal.

Curiosamente, por mais que se fale de "graça" "redenção" e outros termos tão caros ao discurso do novo testamento, a lógica de pensamento sobre a questão da justiça continua sendo o deuteronômio. O capítulo 28 então é o preferido de todos que querem tornar Deus um juiz que tem a lei em uma mão e o desejo incontrolável de punir os outros na outra mão. A grande condicional com o qual o deuteronômio inicia sua lista de "bençãos" e "maldições" é sempre evocado para que o homem se sinta responsável pelas bençãos ou pelas maldições que sobrevierem sobre ele. Nunca ouvi ninguém comentando sobre o papel de Deus nesta história do Deuteronômio, e acredito que a maioria das pessoas não prestam muita atenção a isso quando leem o texto.

A doutrina da retribuição como teologia vigente da época deuteronômica impede que Deus seja visto para além desta teologia, ou seja, o deus de Israel tem que ser o Deus que retribui ou que pune para que a coisa funcione. Se não for assim a coisa desanda. Apenas com o passar do tempo, com o desenrolar da história do povo de Israel, com as diversas críticas feitas à esta teologia (como exemplo podemos citar os livros de Jó e Eclesiastes que fazem severas críticas à doutrina da retribuição) é que é possível entendermos o discurso do Cristo e posteriormente o discurso de Paulo sobre a graça de Deus que subverte o conceito de justiça como retribuição. Um longo caminho teve que ser trilhado para que a noção de amor se fizesse sobressair sobre a noção de retribuição. Obviamente que já vemos nos Salmos, Provérbios, e vários profetas do antigo testamento este Deus de amor se revelando, o que vai contra a ideia muito difundida que o Deus do antigo testamento seria um Deus punidor e o Deus do novo testamento um Deus de amor.

O conceito de justiça perpassa todo o texto bíblico e é bastante interessante pensarmos em seu desenrolar à medida que o povo de Israel vai enfrentando novos desafios, novos exílios, novas batalhas. Assim como qualquer conceito é fruto do seu tempo, o conceito de justiça vai sofrendo uma grande mudança no texto bíblico. Esta transição é várias vezes negligenciada por alguns que insistem em fazer de Deus um sujeito carrasco que apenas quer coisas para nos dar outras. Presos à uma visão arcaica de Deus esquecem do desenvolvimento do conceito de justiça que tem no amor o seu vínculo último.

Talvez só assim possamos pensar como que Deus nos fortalece com a destra da sua justiça. Ou seja, ele nos permite refazer nosso caminho quantas vezes for necessário, pois ele sabe que neste refazer o nosso caminho está envolvida a nossa liberdade, a nossa autonomia, e o mais importante, o seu amor que é fonte da sua justiça. E durante o caminho, por mais escuro que seja, ele está sempre dizendo para nós: "Não temas porque eu sou contigo".


sábado, 7 de dezembro de 2013

Para Allana







Às vezes tudo o que precisamos é apenas um encontro.
A troca simbólica entre duas pessoas,
O sentar ao redor de uma mesa
O comer alguma coisa enquanto se joga conversa fora
O olhar no olho antes de dizer as coisas
O beber com o outro enquanto a noite caminha lentamente
O olhar as pessoas passando 
O sentir a brisa refrescante trazendo refrigério aos corpos...
Coisas simples da vida que vão se tornando cada vez mais raras...

Como é difícil às vezes esse encontro,
Afinal, sempre estamos tão atarefados
Sempre estamos correndo atrás do tempo
Lutando para darmos conta das nossas tarefas,
Tentando nos desdobrar em mil para da conta das nossas promessas,
das nossas metas, dos nossos sonhos...
Isso tudo torna os encontros cada vez mais difíceis. 
Não que estejamos errados em buscar estas coisas, várias delas precisam ser buscadas
E os bons amigos sempre entendem isto

Este encontro, por sua especificidade, não é com qualquer um
É um encontro ímpar, com uma pessoa ímpar, com alguém que permite esta troca simbólica
Com alguém com quem o coração se sente a vontade,
Com alguém com quem a boca não precisará de muitos filtros pois sabe que os ouvidos atentos entenderão
Afinal, o encontro esperado é sempre com um outro estimado
Um outro com quem possamos compartilhar nossas dores, nossos desafetos, nossas alegrias
Um outro que poderá nos compreender, nos ouvir, dizer talvez algumas palavras confortantes
Ou palavras desafiadoras, nos fazer perguntas que temos talvez medo de ouvir, 
ou medo de fazer a nós mesmos.

O importante neste encontro não é o encontro, mas sim este outro
Este rosto que aparece ali e te mostra sua incompetência em resolver tudo sozinho
Este outro que coloca fim ao seu narcisismo e seu desejo de onipotência
Este outro que te mostra que nem sempre o que você imagina em sua cabeça acontecerá
Este outro que te barra,  que te corta com palavras 
Mas ao mesmo tempo que te ama de uma forma tão pura que a interdição não é vista como mal
Às vezes tudo o que precisamos é este encontro presencial com o outro. 

Neste mundo conectado, há cada vez mais a ilusão de estarmos próximos 
Há o vislumbre de que estamos com o outro porque o respondemos ou o comentamos,
Mas nenhuma destas respostas é capaz de suprir a presença, o rosto do outro diante de nós
Apenas face a face é possível esta troca completa, esta presença real, 
talvez a supressão do vazio que sempre nos rodeia. 

Mas quem somos nós para cobrarmos qualquer coisa de qualquer pessoa?
Quem somos nós para dizer o que o outro deve ou não fazer?
Devemos perceber sempre o esforço dos que se importam
Devemos sempre valorizar as pequenas atitudes, os pequenos gestos
Estes são sempre os mais significativos, são os mais inspiradores.
É uma mensagem, é uma ligação, é uma preocupação, é um dizer: Estou preocupado contigo!
É um se mostrar disponível apesar da falta de tempo, 
É um se desdobrar para que as tarefas nunca sobreponham o que mais importa
É se mostrar como uma pessoa que ama, que cuida, que chora e que ri junto
Estes gestos são em si inestimáveis, representam muito,
Pena que às vezes são levados tão em pouca conta por vários que não vêem na simplicidade do ato
Toda a sua beleza... 

Este tipo de pessoa que, apesar das tarefas
Apesar da falta de tempo
Apesar do cansaço
encontra tempo para um gesto,   
para se importar, para ligar, para tentar suprir a falta, 
é cada vez mais raro hoje em dia, e por isso elas devem ser valorizadas ao extremo
E para estas pessoas raras, dedico este texto.
Tenho sorte de ter algumas pessoas raras em minha vida,
Isto me deixa muito feliz. 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Não temas, porque eu sou contigo. Reflexão sobre Isaías 41:10




Diante do caos que parecia eminente e que nada seria capaz de acalmar ou remediar, surge uma voz que dizia: "Não temas porque eu sou contigo, não te assombres porque eu sou teu Deus. Eu te fortaleço e te ajudo com a destra da minha justiça" (Isaías 41:10).

Assim, em meio ao cativeiro onde nada mais parecia se vislumbrar, a voz de Deus ressoava na boca do profeta. Era talvez como uma brisa suave, que assim como com Elias, o tomava sem esperar e o surpreendia pois estava acostumado apenas com gestos grandiosos de um "deus dos exércitos".

A voz soava, ecoava, trazia palavras de esperança, palavras de conforto que fazia o povo acreditar que nem tudo estava perdido. Acreditar que por mais que pareça que tudo esteja desmoronando ao nosso redor, ainda assim é possível uma palavra de esperança, ainda assim é preciso crer que o futuro será melhor que o passado.

A voz de Deus naquele momento não era um convite à apatia, ou um convite a simplesmente "se entregar" e deixar que tudo se resolva. Era exatamente o contrário. As palavras ditas pelo profeta são para aqueles que continuavam a seguir no caminho. A fala do profeta fala de um Deus que os fortaleceria, ou seja, de um Deus que andaria com eles pelo caminho, mas em momento algum de um Deus que tomaria conta de tudo, como quem assume a responsabilidade por nossas ações. O Deus que fortalece e ajuda, é um deus que caminha junto.

Pelo fato de caminhar junto no caminho é possível a Ele dizer "não temas", é apenas porque ele estará conosco durante todo o percurso que podemos crer e não temer. Uma promessa deixada apenas no campo da palavra em nada mudaria a vida do povo. Basta lembrarmos do caminho de Emaús, onde a companhia, o gesto permitiu aos discípulos o entendimento da situação. O caminho de Emaús precisava ser trilhado, assim como nós precisamos trilhar vários caminhos durante nossa vida. Às vezes eles serão tortuosos, às vezes serão mais planos, mas a confiança que temos é que Ele estará conosco enquanto caminhamos.

Curiosamente, Ele chega até nós no caminho como mais um que caminha, como alguém que quer estar perto, quer ser parte da caminhada. Ele chega como um amigo, como irmão, como simples homem frágil que tem que caminhar para o seu destino. Longe das intervenções metafísicas, longe dos barulhos, alardes, etc. Uma chegada simples como a brisa com Elias, simples como um homem montado no jumentinho, simples como as pombas. E na simplicidade de um amigo que caminha junto Ele se mostra e diz novamente para nós: "não temas porque eu sou contigo."


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Lamentos






Toda noite penso em você. Não sei mais onde você está, o que está fazendo, quantos novas pessoas encontrou, com quem convive agora. Não sei mais tanta coisa sobre você.

Fica talvez a saudade de algo, saudade da pessoa, dos mundos transitados, dos momentos vividos, dos risos, e até mesmo das tristezas...

Falta até mesmo palavras pra escrever, ou descrever o que sinto no momento. Sentimento confuso de perda, mas ao mesmo tempo de conformação, sentimento de resignação, mas já aprendi a lidar com ele.

Saber que talvez tenha sido eu a causar tamanha distância muito me incomoda, muito me faz sentir estúpido por fazer com que você não esteja mais ao meu lado.

Tanta coisa mudou desde então que nem sei mais se ainda estaríamos no mesmo lugar, na mesma página, com a mesma afinidade de outrora.

Pena que aconteceu desta forma. Pena que não era para ser.

Lamento resignado como quem chora por algo que não pode mudar, como quem pede socorro sem ninguém para ouvir a voz que ecoa, como mero sino que soa no nada.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O juiz, o general e o Outro.




Cada um enxerga o Deus que quer, mas não apenas o Deus que quer, mas o deus que lhe é ensinado. Alguns são ensinados que Deus é um grande juiz que tudo vê o tempo todo, que está sempre pronto a encontrar uma falha para nos punir e nos condenar ao inferno eterno, ou então nos recompensar por todo o bem que fizemos na Terra durante nossa pequena jornada por aqui.

Este deus que administra uma balança e pesa todo o bem e todo o mal e feito é bem recorrente nas várias falas que ouvimos por aí em diversas igrejas, discursos, etc. A meu ver esta visão coloca a questão da salvação de uma forma bem simples. Vira uma questão de meritocracia aplicada à alma. Se você fez o bem, será recompensado, se fez o mal sofrerá as punições. Tipicamente a teologia da retribuição/deuteronômica tão criticada já nos textos de Jó e Eclesiastes.

Esta mudança da forma de ver Deus acontece até mesmo no próprio texto bíblico. O "Senhor do exércitos" é a forma como o povo de Israel via o seu Deus. Tanto que se notarmos o texto bíblico no Antigo Testamento, veremos que as constantes guerras se davam entre os povos, mas entre os deuses dos povos também. O exemplo clássico de Elias contra os profetas de Baal  tipifica esta relação muito bem. A questão ali era saber quem era o deus mais poderoso; ou seja, o deus mais poderoso seria aquele que mandaria o fogo dos céus e queimaria as ofertas do altar. Dessa forma, o "senhor do exércitos" tinha sempre que dá mostras do seu senhorio a cada batalha, e não raro vemos deus sendo descrito como um general que daria as estratégias ao povo de Israel para que estes ganhassem a batalha.

Esta visão sobre Deus condiciona também o que pensamos que Ele possa querer de nós. Se notarmos bem, não há uma proposta de "evangelização" no Antigo Testamento. Os povos derrotados geralmente eram eliminados pois eram vistos como rebeldes e desobedientes. Não há uma tentativa de converter os povos derrotados, é como se o senhor do exércitos não tivesse interesse em novos guerreiros. Podemos notar que a imagem de Deus para o povo de Israel é a de um Deus que comanda seu povo, é um Deus general, que funciona como legitimador das guerras por território. Talvez no Antigo Testamento, apenas em alguns dos salmos de Davi podemos ver esta imagem se esvaindo e se tornando mais intimista.

É bastante óbvio que a imagem que temos de Deus é fundada a partir da cultura que vivemos. Seria até interessante pensar hoje a relação ou até mesmo a volta da doutrina da teologia da retribuição sob o nome de teologia da prosperidade à luz da presença massiva do capital em praticamente todos os setores da vida.

É como que se de alguma forma, a teologia da prosperidade não mais precisasse de Deus para fazer efeito, mas apenas do pressuposto que a meritocracia é um bom meio para as coisas se encaixarem.  Se antes a teologia da retribuição colocava tudo nas mãos de Deus, chegando várias vezes a negar a própria vontade do homem em nome da vontade de Deus, (doutrina próxima a defendida por Calvino) a teologia da prosperidade coloca Deus na mão do homem. De doador, Deus passa a ser visto como serviçal que há muito tempo atrás teria feito uma promessa de honrar o mérito do seu senhor. Esta perversão da noção de "servo" na relação para com Deus é algo bem comum hoje em dia, principalmente nos meios neo-pentecostais.

Estas diversas visões a respeito de Deus poderiam ser multiplicadas ad infinitum tanto no texto bíblico e daí mostrar suas evoluções, etc, quanto se considerássemos outras culturas, ou outras religiões, etc. Esta tarefa por mais interessante que seja é impossível de ser tratada neste pequeno texto.

Para mim, as duas formas que o texto bíblico expressa de forma mais "universal" a imagem de Deus é na fala do salmista que diz: "Oh Deus, tu és o meu Deus e eu  te busco intensamente" (Sl 63:1 - NVI) . Ou seja, Deus é sempre o meu Deus, pois sempre o vejo de forma diferente e nova, pois ele se revela para mim sempre de forma diferente e nova. Eu sempre me relaciono com ele a partir das minhas vivências, a partir daquilo que me ensinaram. O meu Deus só passa a ser "pai nosso" quando encontramos alguém que o vê parecido como nós o vemos. Quando somos inseridos em um cultura que nos diz que "deus é assim". Deus nunca é igual para mim e para o outro, mas é parecido. Deus é sempre uma experiência particular que toma sentido a partir do outro.

A segunda, e talvez a definição mais simples, é a de João que afirma que "Deus é amor", (I Jo 4:8) ou seja, Deus é sempre incompleto, pois o amor é sempre incompleto, sempre está pronto para se doar, para abrir concessões, para se expandir, o mesmo penso eu a respeito de Deus. Deus é este inominável que se mostra a partir do amor ao próximo, que se mostra no amor à terra, que se abre ao outro se doando sem nada esperar receber. Talvez por isso a definição mais simples seja a mais complicada no final das contas. Daí talvez que as diversas formas de enrijecer a imagem de Deus seja sempre uma espécie de atentado à liberdade do amor que se encontra em todos. 

Por isso que Deus é sempre meu Deus, mas ao mesmo tempo é sempre "Pai nosso" que é visto sempre em pequenos traços, mediado pelo meu contato com o próximo a quem sempre posso levar amor fazendo com que Deus se mostre para o outro de forma sempre nova. 

No final então, nem o juiz, nem o general,  mas apenas um grande outro que se revela sempre de forma nova dando sentido à existência.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O Atalaia






Nem sempre os ouvidos atentos encontram ouvidos atentos
Afinal, quem vigia o atalaia enquanto ele faz o seu trabalho?
Não existe o atalaia do atalaia, mas ele sempre está sozinho.
E talvez apenas por estar sozinho é que seja capaz de ser um atalaia.

O atalaia olha para todos os lados, exceto para dentro de sua fortaleza
E aí, bem dentro do seu lugar, se encontra o objeto que lhe causa angústia
Nada ele pode fazer pois nunca encontra com este objeto,
Já que seus olhos sempre estão fixos na cidade.

O atalaia cumpre seu papel de olhar para fora,
Mas sob a pena de nunca olhar para dentro
Nas vezes que o faz, raramente encontra alguém para ouvir seus gritos
Novamente está sozinho.

O atalaia sempre tipifica nós mesmos.
Estamos sempre de olho na cidade, sempre de olho nos perigos que vêm de fora,
Mas raramente olhamos para dentro da nossa fortaleza
De onde talvez virão os maiores perigos.

E quando o atalaia olha para dentro e quer erguer sua voz para alguém
Não raro encontra o nada como ouvido atento.
E novamente está sozinho.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Igrejas inclusivas - Algumas considerações






Todos que me conhecem sabem que sou super a favor da causa homossexual, defendo que eles devam ter todos os direitos iguais como  qualquer outro cidadão, quanto a isso acho que não tem o que discutir. 

Recentemente recebi um email sobre a criação de uma igreja gay que se reúne em BH e em outras cidades brasileiras.  As igrejas ditas inclusivas já e existem há algum tempo. Em um grupo que participo a questão sobre esta igreja apareceu e entre as conversas foram ponderadas algumas coisas. 

A igreja evangélica lida muito mal com a questão homossexual e isto é sabido por qualquer homossexual que tente frequentar uma igreja evangélica. Geralmente é dado a este homossexual duas alternativas: Ou ele "abre mão" de sua orientação sexual (como se isso fosse possível), ou então "mantém sua orientação sexual" contando que não pratique uma relação homossexual. Não sei qual das duas alternativas seria a pior para o sujeito, mas nenhuma das duas soa saudável. 

E por que a igreja evangélica age assim em relação aos homossexuais? Porque para a igreja evangélica os escritos de Paulo devem ser lidos de forma literal sem contextualização histórica, sem a ponderação de que talvez a visão paulina seja fruto de seu meio, de seus próprios pré-conceitos, fundados em um tipo de antropologia que fazia sentido na época, mas que precisa ser repensada hoje. 

Notem bem que não cito os textos de Levíticos pois isto levaria a discussão para um outro lugar que seria uma questão do tipo: "Quais são os critérios para obedecer alguns preceitos de Levíticos (por exemplo quando citam a questão homossexual), e não outros claramente proibidos por lá (tais como os alimentos proibidos, os filhos desobedientes que deveriam ser apedrejados, etc)?" Questões estas que podem até ser analisadas em outro texto posterior. 

A meu ver, enquanto se mantiver uma visão fundamentalista do texto bíblico não é possível um diálogo aberto sobre a questão homossexual dentro da igreja evangélica. Pois temos que admitir que as duas "alternativas" que são dadas aos homossexuais pelas igrejas evangélicas citadas acima não configuram alternativas sadias. Apenas uma visão fundamentalista do texto bíblico permite o tipo de tratamento que é dado aos homossexuais dentro das igrejas evangélicas. 

Do ponto de vista teológico penso que a questão fica bem complicada para legitimar a igreja gay. No entanto, eu acredito que seja possível uma igreja cristã que aceite a questão homossexual sem abir mão de sua teologia, mas abrindo mão de sua antropologia, e neste sentido já há uma boa tentativa de diálogo. Como exemplo cito o livro lançado pela Unisinos chamado "A pessoa sexual" onde este diálogo é feito de uma forma mais sistemática. 

Algo que me preocupa é que ao ser necessário uma "igreja gay" não estaria a própria igreja enquanto instituição sucumbindo à dinâmica mercadológica em um nível acima do que já vemos constantemente hoje? 

No final das contas parece que quem determina o "tipo de igreja" é a "demanda do mercado" de forma que ela se torna mais um produto a ser consumido. Ou seja, tem-se a igreja gay para os gays, a igreja rica para os ricos, etc. como sendo um mero produto, e isso a meu ver é um projeto fadado ao fracasso.

Por um lado estas igrejas podem ser "úteis" por permitir uma certa vivência congregacional a indivíduos aos quais são negados o congregar, mas por outro lado todas estas "mercadorias eclesiásticas" podem estar cooperando para o esvaziamento da proposta que diferencia "igreja" de "produto"...

Em suma, não seria a própria dinâmica do capital que criaria a "necessidade" de uma igreja gay de forma a atender "o mercado" carente de um certo produto da mesma forma que as igrejas que adotam a teologia da prosperidade vêm fazendo? E se for esta a relação predominante, não estaria a igreja gay sendo um grito de intolerância diante de uma instituição que se nega a aceitar seus pressupostos?

Entra-se numa dinâmica estranha onde ambos os lados podem ser chamados de intolerantes. Tanto a igreja cristã que nega a aceitar a questão gay em nome de uma certa teologia, e ao mesmo tempo a igreja gay que tenta forçar um reconhecimento em uma instituição que não aceita os pressupostos e para isso assume o título de "igreja cristã" sem uma certa legitimidade.  

Mas por que as igrejas que adotam a teologia da prosperidade  e todas estas falcatruas que vemos em seu meio são aceitas como igrejas evangélicas e as inclusivas não? A meu ver é porque as igrejas neopentecostais não mexem na "antropologia teológica comumente aceita", enquanto que as igrejas inclusivas precisam se arraigar seu discurso "refundando" uma antropologia.  

A questão é bem embricada e vários fatores estão relacionados, apenas citei alguns aqui para  vermos que a questão não passa apenas por uma questão teológica, embora tenha nela a base da minha crítica. 

Para mim, falta às igrejas ditas inclusivas um embasamento teológico mais consistente de forma a legitimar o seu discurso dito cristão. Enquanto isso não acontecer, penso que as igrejas inclusivas permanecerão sendo vistas com maus olhos pela igreja cristã e sua tentativa de inclusão terá pouquíssima chance de ser aceita. 

Fica aqui o meu convite às igrejas inclusivas 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Trabalho, Internet, Paradoxo...




Sei que já se tornou um grande clichê falar do paradoxo aproximação/afastamento provocado pela internet, mas olhando para trás em minha trajetória em diversos empregos é muito claro para mim o afastamento que a internet provoca criando a ilusão de proximidade. Cito apenas dois exemplos de dois lugares onde trabalhei.

Há cerca de uns 10 anos atrás, eu trabalhava em um lugar onde tinha-se muito pouca coisa para fazer. O trabalho propriamente dito era uma parte esporádica do dia, e na maior parte do tempo ficávamos apenas lá à espera de que alguém procurasse o setor para resolver alguns problemas. Pouquíssimas pessoas chegavam na maior parte das vezes, em uns raros momentos havia "horários de picos" que eram facilmente resolvidos por quem trabalhava lá.

Um dado que acho importante ressaltar é que no setor trabalhavam uma média de 10 pessoas entre chefia, auxiliares administrativos, vigilância, etc. no entanto, havia apenas 1 computador no setor. Este 1 computador ficava na sala do chefe e era usado para os lançamentos de dados nas planilhas e os acessos à internet que alguém quisesse fazer. A meu ver, o fato de haver apenas um computador e este ficar na sala do chefe propiciava para os funcionários um tempo de conversa entre si que não aconteceria se cada um tivesse um computador à sua disposição. Como não havia muito para fazer em questões de trabalho, e não havia um computador para cada pessoa de forma a cada um se distrair com seus afazeres particulares, restava à maioria o convívio pessoal regado a muita conversa e cafés.

Estes momentos de conversa eram muito bons na maior parte do tempo e nos fazia entrar em direto contato com o outro e desenvolver uma verdadeira amizade que cooperava muito para o bom andamento do setor. Nos diversos diálogos que tínhamos éramos capazes de compartilhar dificuldades em casa, estudos, marcarmos de sair, ir na casa um do outro, enfim, desenvolver uma amizade que transcendia a esfera do "mundo do trabalho".

Atualmente trabalho em outro lugar onde também há muito pouca coisa para fazer. O trabalho aparece em pequenos momentos também e raramente temos horários de pico onde uma ação mais efetiva seja necessária. São também uma média de 10 pessoas no setor, mas ao contrário do primeiro exemplo, cada um tem seu próprio computador com conexão a internet e isso a meu ver provoca um grande afastamento nas relações humanas. Já trabalho neste setor há 6 meses e conheço muito pouco a respeito das outras pessoas que trabalham comigo. Não sei direito onde moram, nem se tem irmãos, família, se preferem churrasco ou saladas, se são cruzeirenses, atleticanos ou se nem ligam para futebol, etc. Praticamente não sei nada sobre as pessoas que trabalham comigo. A meu ver isso se deve em grande parte ao fato de na maior parte do tempo cada um estar preocupado com sua conta no facebook, sua série americana preferida, seus livros, e tudo isso facilitado pelo simples fato de ter um computador conectado à internet bem a sua disposição.
Neste caso, a internet promoveu um grande afastamento das relações humanas. É como se elas não precisassem se relacionar no mundo do trabalho. Não é porque elas têm muita coisa para fazer, ou esteja passando mal, ou coisa do tipo, é simplesmente a grande ausência de interesse pelo contato com o outro que acaba sendo substituído pela internet muito facilmente. Como já expus em outro texto, há toda uma concepção de diferenciação entre o "mundo da vida" e o "mundo do trabalho". (Você pode acessar  o outro texto aqui)
Este afastamento acaba propiciando um ambiente de trabalho um tanto quanto "mecanizado" onde se perde um certo "quê" de "humanidade". Entramos e saímos sem trocas simbólicas, apenas "fazendo nosso trabalho". Esta ausência de troca simbólica a meu ver é prejudicial e é algo que precisa ser mudado para um funcionamento mais humanizado do setor.

Como todos sabemos, o grande paradoxo da internet consiste em nos aproximar do mundo e nos afastar das pessoas próximas dificultando as trocas simbólicas que envolvem um outro que não eu mesmo narcisicamente projetado em relacionamentos virtuais. Para mim, este distanciamento se faz notar de forma muito nítida a partir destes dois exemplos tirados da minha experiência. Obviamente que eu mudei, que as pessoas mudaram de um lugar para outro, mas o que se perdeu não tem a ver com as mudanças das pessoas, mas com a mudança das "formas" de relacionamentos criadas hoje, que várias vezes tem muito pouco de "relacionamento" e mais de "ensimesmamento". Este "ensimesmamento" acaba isolando o sujeito do mundo humano, configurando não raras vezes em um grande vício que se atentarmos bem funciona de forma parecida com uma droga na qual o sujeito se isola tentando narcisicamente encarar o mundo sem o outro.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Digressões





Que houvesse flores em todo o canto e nada as impedissem de crescer.
Nada o impedisse de crescer.
Diante da beleza o que resta é apenas o silêncio.
Como bons místicos que finalmente se entregam diante do nada e tudo ao mesmo tempo
onde o que resta é apenas o Eu diante do mistério.

O paradoxo do silêncio que invade a alma e faz vir a paz que excede todo entendimento...
A contemplação da vacuidade, mas ao mesmo tempo, a percepção do propósito...
A entrega.
A aposta.
A fé.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Um pequeno gesto como subversão





Às vezes não é muito o que é necessário para se fazer uma pessoa feliz. Os pequenos gestos fazem toda a diferença em qualquer relacionamento, seja ele um namoro, um casamento, uma amizade. E talvez o fato dos pequenos gestos fazerem tanta a diferença é que geralmente eles vêm em horas que você não está esperando. Esta surpresa dos gestos simples é realmente encantadora.

Os pequenos gestos, talvez por serem pequenos, geralmente vêm de quem se importa. Raramente uma pessoa que não dá a mínima pra você fará um gesto pequeno que mudará o seu dia.
Primeiramente porque apenas quem está próximo será capaz de sentir sua falta.
"Segundamente" porque para que o gesto ocorra é preciso que você ocupe um lugar no coração do outro que várias vezes não é preenchido por ninguém mais. Não que isso o torne mais especial que outras pessoas, mas isto te torna único no coração do outro.

O gesto simplesmente acontece e você fica ali, sem ter palavras para dizer o quanto tal gesto significou para você em um determinado momento de sua vida. Poderia ser uma ligação, um email, mas era uma pequena mensagem que, de tão simples que era, fez toda a diferença na minha tarde. Era apenas uma mensagem, mas que trazia consigo todo o carinho, toda a preocupação, toda uma história de uma saudável amizade. E o que mais me impressiona é o que motivou tal mensagem. O que a motivou foi um pequeno comentário meu sobre uma situação minha. Isto fez o coração desta outra pessoa se mobilizar de tal forma que mesmo distante fisicamente, sua presença se faz mais constante que várias.

Ser um outro para o outro está cada vez mais difícil em uma sociedade tão narcísica como a nossa onde cada um preocupa-se apenas com seus problemas, onde o outro some muito facilmente pois com ele vem uma demanda que não é o "eu mesmo" e desta forma não é digno de importância. Um lugar onde este narcisismo se mostra de forma clara é o das redes sociais.

As redes sociais ao mesmo tempo que visam aproximar as pessoas uma das outras por meio da tecnologia promovem uma completa "monadização" massiva. Isto é, pequenas mônadas, aparentemente completas em si mesmo compartilhando, tweetando coisas que na maioria das vezes passa apenas uma imagem (e muito distorcida) da pessoa que posta ou tweeta um assunto. Dentro deste contexto é muito fácil ser uma pessoa legal, inteirada, com visões políticas atuais, sem preconceitos, livre de todas as amarras, que lê apenas coisas interessantes, que tem amigos legais, que tem posições políticas interessantes, vanguardistas, reformistas, esquerdistas, que é a favor do homossexualismo, pansexualismo, teoria queer, que é favor da não-discriminação dentro do futebol, que é favor do feminismo, contra o machismo, contra a igreja, a favor dos médicos cubanos, etc... Curiosamente, os mais "vanguardistas" do mundo cibernético assumem quase sempre a posição "mainstream" dos meios cibernéticos e não raras vezes vemos se formar aí um discurso extremamente fundamentalista em torno de alguns assuntos. É como se a "mente aberta" do vanguardista só comportasse assim na presença do que pensa igual e nunca com o que pensa diferente. A meu ver isto é um estranho paradoxo.

É fácil ser qualquer coisa no mundo cibernético, e isso a meu ver faz com que cada vez mais o sujeito perca a dimensão do outro em meio a tantos posicionamentos, em meio a tantos subterfúgios para sempre parecer "in" sobre todos os assuntos. A busca por uma espécie de aceitação (na defesa das posições mainstream) acaba fazendo com que o sujeito se volte apenas para si, apenas para sua auto-imagem reproduzida em sua timelinte e neste contexto o outro some em meio ao narcisismo da aparência promovido em grande parte pelas redes sociais.

Mas ao mesmo tempo este tipo de comportamento nas redes sociais mostra uma dinâmica muito hipermoderna que é o simples fato de ver como negativa toda forma de limite. O limite é encarado como algo prejudicial pois cerceia o sujeito de alguma forma. Se instaura uma espécie de "cinismo contemporâneo" onde o que se coloca como ideal é a completa ausência de leis, a completa ausência de limites, e isto visto como uma espécie de liberdade. (Para quem não se lembra, o cinismo é uma escola helênica que pregava uma espécie de "prazer desmedido". Eles se consideravam cidadãos cosmopolitas e por isso afirmavam que não precisavam respeitar nenhuma lei da sua cidade, daí faziam o que queriam, qualquer coisa que lhes dessem prazer. Dessa forma veio o nome "cínico" que em grego seria algo como "Kynikós" que significa "cachorros".)

 Desta forma se evidencia neste meio cibernético algo que podemos chamar de "narcinismo", ou seja, um narcisismo cínico onde  a única coisa que importa é o gozo que o sujeito vai usufruir ao ver sua imagem imaginária estampada na timeline, onde ele pode fazer "o que quiser" pois de fato, no mundo da internet, quase nada o limita. Com isto este sujeito se fecha cada vez mais sobre si mesmo, mas o faz sob as vistas, "curtidas" e "compartilhamentos" de vários.

Qualquer pessoa que utiliza estas redes percebe claramente este movimento narcínico em prol de sua auto-imagem cibernética. É um dado que está aí. Esta atual conjuntura faz com que os pequenos gestos como o que ocorreu comigo hoje faça toda a diferença.
O pequeno gesto que cito no início deste texto,  dentro desta configuração mostrada, se coloca como uma espécie de subversão. Como um algo que se recusa a se encerrar em um narcisismo doentio em nome de uma imagem. O pequeno gesto coloca a dimensão do outro em evidência. Faz surgir para o sujeito este lugar vazio que a auto-imagem não é capaz de preencher e que apenas o reporte ao outro é capaz de mediar. O outro adquire assim uma dimensão que lhe é negada constantemente.

Esta conjuntura do "narcinismo" descrita um pouco acima me faz admirar ainda mais o pequeno gesto de uma amiga querida, pois são nos pequenos gestos onde encontramos a maior beleza de um relacionamento saudável, uma vez que nos pequenos gestos somos capazes de ver o quanto somos importante para o outro, e isso é sempre sem preço.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Algum "Tu"




Diante do caos, calei-me
Diante do silêncio também
O que as palavras falariam
Pouca ou nenhuma diferença faria

Nesta incompreensão de mim mesmo e do Tu
Apenas o silencio restou
E então cá estou
apenas eu, o mundo e o Tu inacessível...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sobre o Reconhecimento e o Limite







Penso que o objetivo de todo líder que exerce uma função de guia deveria ser a de se tornar dispensável. à medida que vamos crescendo, amadurecendo, é preciso reconhecer que o outro também passa por este mesmo processo que nós passamos. O outro também vai se desenvolvendo, vai amadurecendo de forma que se antes sua ajuda era crucial em várias demandas, agora ela vai se tornando cada vez menos necessária.

Geralmente esta perda da dependência é vista por alguns como descaso, como abandono, como ingratidão frente a toda ajuda já prestada em momentos às vezes tão complicados, mas eu prefiro olhar como sendo uma espécie de corolário de um bom trabalho.

O fato de alguém não precisar mais de nós para resolver alguns dos seus problemas não indica que perdemos a importância para ela, significa apenas que tal pessoa está amadurecendo, e está se tornando apta para tomar suas próprias decisões a partir dela mesma. Sinal de amadurecimento.
Acredito que este tipo de relação seja muito próxima à relação que os pais estabelecem com seus filhos. Se desde o nascimento os pais são aqueles que ensinam, estimulam, mostram o caminho à criança de forma que ela tome boas decisões, saiba se portar no mundo, etc. quando esta criança começa a crescer, se transformar em adolescente, adulto, etc. e passa a tomar suas próprias decisões, este sentimento de abandono pode vir de forma muito forte. Daí várias vezes a tendência dos pais de tentar segurar ao máximo seus filhos próximos a si, de propor diversas "chantagens emocionais", insinuar a suposta ingratidão frente a todo sacrifício feito para que o filho chegasse a se estabelecer, etc. Uma atitude que demonstra certa imaturidade dos pais de não reconhecer o desejo do filho como um desejo autêntico, separado do desejo dos pais. O velho conflito geracional se dá muitas vezes neste contexto.

Penso que os pais devem aprender a se tornarem dispensáveis. Ou seja, aprender que seus filhos se tornaram pessoas capazes de tomar suas próprias decisões. Por mais erradas que sejam, por mais que se discordem delas, o ato de tomar tais decisões implica que algo do que foi ensinado permanece e foi condição de possibilidade para que isto acontecesse. A decisão tomada contra o nosso conselho, ainda assim é uma decisão de um ser pensante que por isso deve ser reconhecida em todo o seu valor simbólico.

Obviamente há diversas decisões que as pessoas tomam que achamos estúpidas, que nós mesmos não faríamos, que sabemos por diversos motivos que trará prejuízos enormes a longo e talvez a curto prazo, decisões que colocam o indivíduo em diversos problemas que ele não precisaria enfrentar se apenas te ouvisse em um conselho. Mas mesmo assim, a decisão do indivíduo tem todo o valor de uma tomada de atitude que, dependendo do grau da atitude, demonstra todo o amadurecimento do outro.

Este reconhecimento do desejo alheio, da dimensão do diferente, é um sintoma de amadurecimento para todo aquele que exerce alguma função de liderança, paternidade, maternidade, pastoreio, etc. Reconhecer que o desejo do outro é diferente do meu, que a forma de ver do outro é diferente da minha, ver que as decisões a seu ver erradas tomadas por seus amigos ainda assim são decisões dignas de respeito é sinal de maturidade.

Curiosamente dentro das igrejas evangélicas tal amadurecimento é muito pouco estimulado. A dinâmica pastor/ovelha se torna paradigmática do membro que geralmente permanece infantilizado diante da tomada de decisões. Não é raro vermos diversos membros que precisam do aval do pastor para tudo. O pastor substitui o "pater familis" de onde provém toda a palavra positiva ou negativa. Incapaz de tomar uma decisão, o membro precisa da aprovação do pastor para tudo, e obviamente isto gera uma relação de dominação entre pastor e membro que muitas vezes nunca é desfeita.

Esta relação de poder favorece o domínio do pastor, a manipulação em nome de interesses escusos como várias vezes vemos sair na mídia. A infantilização do membro, que se recusa a crescer, é incentivada pelo pastor. E a própria nomeação da relação como sendo "pastor e ovelha" favorece tal dinâmica da dominação. Escrevi sobre isto aqui.

O pastor não quer se tornar dispensável, pois a partir deste lugar assumido por ele, sua própria identidade se estabelece, e ao mesmo tempo a identidade do membro fica totalmente submetida à identidade do pastor...

Esta mesma relação pode ser vista na relação "Homem-Deus". Não raro vemos que Deus acaba se colocando como projeção da figura paterna (como já nos mostrou Freud muito bem) onde de alguma forma faz com que tudo dependa Dele. Esta suposta dependência infantil do homem para com Deus se torna várias vezes um grande entrave para que esse homem se desenvolva. Acredito que o propósito de Deus esteja muito bem resumido nas palavras do Cristo que nos dizia: "não os chamo mais servos, mas sim amigos". Não uma relação infantilizada, mas uma relação adulta, uma relação de amizade para com Deus. Ou seja, uma relação onde eu vejo a Deus como um amigo, e não como alguém de quem eu dependa o tempo todo para qualquer coisa. Um Deus que não está sempre disponível é algo impensável para a maioria das pessoas. (Este tema é interessante e talvez um novo texto no blog trate deste assunto)

Assim como dito no começo deste texto, os amigos também podem exercer uma função "paternal" em relação aos outros. Lacan mesmo já nos mostrou que na época da evaporação da figura paterna na contemporaneidade, basicamente qualquer indivíduo pode assumir a função paterna perante outro indivíduo. Os amigos várias vezes se tornam nossos pais, mães, irmãos mais velhos, etc. Obviamente apenas alguns dos nossos amigos exercem esta função, e como ela se desenvolve varia bastante caso a caso.

Uma relação adulta entre amigos, pais, liderança  passa pelo reconhecimento do desejo do outro como diferente do meu. Sem este reconhecimento temos a enorme tendência de querer colocar todas as pessoas próximas a nós como iguais a nós mesmos, querendo impor a eles uma certa visão de mundo que o outro não compartilha. Obviamente que há tantas visões de mundo quanto há pessoas no mundo, no entanto não podemos cair na grande falácia contemporânea do relativismo de forma a pensar que todas as visões de mundo são igualmente válidas pelo simples fato de serem visões de mundo de seres singulares. Tal relativismo nos conduz não a um reconhecimento do diferente, mas a uma igualação de todos os pontos de vista sob a égide de um único ponto de vista.

O relativismo acaba nos levando para a ausência de limites, o que é visto por muitos como um grande lucro na contemporaneidade acaba por se mostrar como um grande promovedor de um gozo cego e sem limite que não dá lugar para o nascimento do desejo, nos colocando como meros animais na busca de satisfação. Algo muito bem explicado pela psicanálise é que o desejo só nasce a partir do limite. A partir da interdição da lei da palavra surge no homem o desejo. Lei e desejo humaniza o homem, e isto cada vez mais tem se perdido na contemporaneidade onde o grande imperativo se torna a ausência do limite como forma de satisfação do homem.

Reconhecimento e limite: Duas palavras que precisam ser retomadas na contemporaneidade em toda a sua acepção de humanização do sujeito.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Texto que não merece ser lido. Sinceramente !





Pensando outro dia resolvi partir de um pressuposto que seria a idéia de que se talvez pudéssemos por alguma vez fazer tudo da forma como gostaríamos, talvez o mundo seria pior do que ele é.

Pensei que a frase acima evidencia claramente uma antropologia mais " a la Hobbes" que "a la Rosseau", mas demonstra um certo "teor Freudiano" em relação a própria sociedade. (uma espécie de pessimismo frente ao próprio homem e as pulsões que o move). A limitação que sofremos se coloca como moldadora da nossa personalidade, mas ao meso tempo nos impulsiona a não querer nos sucumbir diante dela.

Paradoxo curioso diante da vida que todos nos tornamos invariavelmente fracos diante dele, e dessa forma agimos sem saber direito nesse emaranhado estranho entre desejo (de não sucumbir diante da limitação) e limitação (imposta pela própria estrutura social, biológica, etc. que vivemos) e isso nos constitui de forma inexorável.

As vezes, na tentativa de resolvermos tal paradoxo, remetemos este paradoxo não a algo próximo ou até mesmo intrínseco a nós mesmos, mas a uma causa além de nós, gerando uma culpa por sermos como somos (interessante porque se não somos os responsáveis por sermos como somos, a culpa não deveria estar ali), mas também colocando como uma espécie de "pecado de rebeldia" tudo que contrariaria as determinações a que estamos submetidos. Afinal, qualquer mudança neste cenário se constitui como rebeldia, não contra o indivíduo, mas contra a fonte de onde tudo provém.

Uma espécie de "rebeldia ontológica" que nasce de uma insatisfação, da percepção de não-onipotencia do sujeito diante da realidade. Claro que para se rebelar ontologicamente contra a "fonte de onde tudo provém" é preciso pressupor a existencia de tal fonte. Um compromisso existencial que precederia a rebeldia ontológica.

É como se o sujeito quisesse ser onipotente, mas não pudesse. A figura de Deus aparece então como aquele que se coloca como onipotente. A revolta se manifesta portanto contra Ele. Obviamente que esta atribuição a um Outro pressupõe um distanciamento de mim como causa sui da minha dinâmica. A "rebeldia ontológica" pode se fazer de mecanismo de defesa caindo então em um problema às vezes maior.

Mas como nascem os deuses? Apenas como personificação da rebeldia? Claro que não. Os deuses também nascem como personificação do amor, da bondade e de outras coisas que estão longe de qualquer tipo de rebeldia.

Estes eram alguns pensamentos esparsos, muito sem sentido a meu ver, mas que nem por isso deixa de ser interessante a se compartilhar. Querendo ir para vários lugares, talvez não tenha chegado a lugar nenhum. Sinceramente nem sei se seria interessante alguém ler este texto, mas... 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A igreja evangélica e o tabu do sexo antes do casamento.






Já há algum tempo que venho pensando em escrever algo sobre a tumultuada relação entre a questão sexual e o meio evangélico. Sei que muita coisa já foi escrita sobre isso, algo até com muito mais embasamento bíblico do que o que será exposto por aqui, mas mesmo assim achei interessante colocar minha opinião por aqui. 
Vários que me conhecem já sabem minha opinião a respeito do tema pois já falei diversas vezes sobre ele em conversas informais e discussões não tão informais assim.

A questão sexual é um grande tabú dentro da igreja evangélica. Pouco se fala sobre o tema na maioria das igrejas que conheço, e quando é falado algo sempre é frisado a questão normativa como tema principal. O importante não é esclarecer nada, mas apenas tentar mostrar o que é certo ou errado em relação ao assunto. 

No meio dos jovens a coisa ainda é pior. Na maioria das igrejas evangélicas, o que é defendido é que o sexo só pode ser feito após o casamento, embora não exista nenhum versículo bíblico que afirme este tipo de coisa. O versículo mais utilizados para justificar tal proibição sexual é aquele de Hebreus 13:4 "Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém, aos que se dão à prostituição, e aos adúlteros, Deus os julgará." 

No entanto, como qualquer leitor pode perceber, este versículo não está fazendo nenhuma referência ao sexo antes do casamento, mas apenas "venerando" o matrimônio. Outra coisa digna de ser notada, mas que não se é, é que o "leito sem mácula" inclui também o casal casado "formalmente". O leito sem mácula implica uma união entre os dois onde não há mácula alguma. Sabemos de diversos casais que vivem juntos apenas por comodismo, que um não conversa com outro, que vão dormir brigados, chateados com o outro. Este versículo me parece ser mais para este tipo de situação do que aquele primeiro do sexo antes do casamento. 

Toda tentativa de legitimar o sexo antes do casamento como proibição por ordem divina acabam por perverter os textos bíblicos para interesses escusos. Alguns usam o versículo Mateus 19:5 que afirma que "então deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher", afirmando que o "ato de deixar pai e mãe", implicaria necessariamente o casamento, e só depois que ele poderia se unir à sua mulher. Além de não fazer sentido nenhum este tipo de "análise cronológica" do versículo, ainda se esquecem de uma parte, que eu considero ser a central no debate que é: "O que significa deixar pai e mãe? Poderíamos aqui falar da questão simbólica proposta pelo ensinamento do Cristo neste versículo, onde o lugar do pai e o lugar da mãe deve ser abandonado para que o filho possa surgir como ser independente, mas gostaria apenas de apontar na direção de que se formos olhar apenas a literalidade deste versículo (como várias igrejas insistem em fazer) deveria-se também proibir que filhos casados morem com os pais, ou na casa deles, ou no lote deles, não é? O mesmo versículo analisado cronologicamente permite imputar o jugo muito grande para quem "casa para não viver abrasado". 

Um outro uso não pouco comum é usar o texto de I Coríntios 7:2 onde Paulo fala sobre o matrimônio "Mas, por causa da prostituição, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido". Mesmo Paulo deixando claro no versículo 6 que isto era mais uma opinião dele do que um mandamento, a carta de Paulo é tomada como bússola para a questão. A maioria das "análises" deste versículo insiste em colocar o sexo antes do casamento aliado à "imoralidade sexual", assim como justificar a prescrição de Paulo fora de todo contexto da época. 

Este a meu ver é um dos principais erros destas tentativas de legitimar uma instituição social que é o casamento a partir de uma ordem divina afirmando que o casamento enquanto instituição advém de Deus. Se quisermos ser bem honestos, vemos muito claramente que em nenhum lugar do texto bíblico Deus cria o casamento. Em nenhum lugar ele institui o casamento como "sacramento". O fato do relato bíblico dizer que Deus criou uma mulher para Adão não implica que Deus estava criando aí uma instituição, implica apenas a demanda do homem pelo outro. O outro era necessário para que Adão se humanizasse, talvez este seja um princípio interessante a se pensar no relato da criação. Eva não apenas como "mulher de Adão", mas Eva como "outro que humaniza Adão e é humanizado por ele". 


Se olharmos o próprio texto bíblico veremos que o "casamento" acontecia NO ato sexual. O ato sexual marcava o homem e a mulher como casados. Pelos textos bíblicos (principalmente no Antigo Testamento) seria impossível o sexo antes do casamento, pois o próprio sexo era o casamento. 

Certa vez um amigo meu me disse explicitamente dentro de uma igreja que ele estava casando para poder transar com a noiva dele. Achei muito estranho, mas não tivemos muito tempo para conversar. Qualquer pessoa sensata sabe que casar para poder transar é um motivo muito tolo para dar um passo tão sério como um casamento, mas a "pressão" na igreja evangélica é tão grande em cima dos jovens para "esperar o homem ou mulher certa de Deus", "se conservar puro", etc que acaba levando muitos, mas muitos jovens a optar pelo casamento como forma de satisfazer suas pulsões sexuais urgentes. E o que acontece na maioria destes casamentos? Passa-se alguns anos, eles se separam e os traumas são várias vezes enormes. 

Não se oferece saída para os jovens, adolescentes para lidarem com sua libido. Ou ele casa, ou ele tenta de alguma forma sublimar sua libido participando do louvor, teatro, reunião de oração, etc, uma vez que a masturbação também é visto como pecado. Não resta alternativa para o adolescente ou o jovem dentro desta perspectiva evangélica em relação ao sexo. Tudo isto embasado em uma noção de santidade que muito me espanta pois vê quase tudo que vem do corpo como algo digno de ser rejeitado, como algo menor, impuro por definição. Um platonismo/agostinianismo que permeia toda uma dicotomia entre corpo e alma, onde esta deve ser purificada e a aquele deve ser preso entre cadeias de barras grossas. 

Consigo entender que este tanto de proibição tem como finalidade fazer com que o jovem, adolescente foque sua libido em outras coisas, etc. Em vários casos acredito que isso possa ser até bastante válido, no entanto tentar justificar isto como ordenação divina, citando textos bíblicos esparsos e sem muita contextualização, a meu ver é um uso perverso da Bíblia. 

Por que não se investe em uma educação sexual de qualidade dentro da igreja, de forma a ensinar o jovem, adolescente a lidar com suas pulsões sexuais e não tentar apenas coibí-las por meio de um discurso vazio de santidade? O silêncio da igreja evangélica sobre o tema indica um grande problema, pois esta negação da fala coloca em evidência os diversos tabus sobre a questão no meio evangélico.  

Podemos notar aqui também uma dinâmica muito hipermoderna que é o próprio fato da família se eximir desta função social da educação. No mundo onde todo tipo de informação está disponível muito facilmente, a maioria das famílias acaba por deixar que a informação sexual venha por outras fontes tais como a escola, a igreja, etc. Abre-se mão da responsabilidade de ensinar os filhos, e isso torna-os presas fáceis dos discursos tanto legalistas (advindos de várias igrejas) quanto "libertinos" (advindos muito da sociedade hipermoderna que cria a ilusão de uma liberdade sem limites). 

Para mim, a principal questão em relação ao sexo é sempre a questão do amor. E acho que este ponto acaba se tornando o principal, até mesmo dentro do relato bíblico. O que torna a união sexual, a meu ver, algo de um valor especial (o que faz também ela se recobrir-se de tabus) é quando o ato sexual é a manifestação de duas pessoas que se importam uma com a outra e que se está disposto a se responsabilizar pelo outro, afinal o amor sempre envolve responsabilidade para com o outro. Neste sentido, se o sexo acontece entre duas pessoas que se amam, que estão dispostos a se responsabilizarem um pelo outro, então, a meu ver é completamente indiferente o fato de estarem ou não casadas. 

Sei que este meu discurso soa muito "demodè" para uma sociedade onde o sexo perdeu o seu caráter de união e virou mero império de um gozo que Lacan chamaria "gozo mortal", um gozo que só se importa consigo, altamente narcísico, onde a dinâmica do outro some do cenário, e o corpo é apenas um objeto a ser usado para obtenção de prazer.

Também não ignoro que algumas pessoas consigam fazer a substituição do sexo sublimando isto por meio de leituras do texto bíblicos, envolvimento com outras atividades, orações etc. Várias igrejas fazem um esforço hercúleo para driblar os desejos sexuais dos jovens e adolescentes.  Acredito que seja possível e várias vezes muito mais benéficas para o sujeito que uma relação sexual. A meu ver, a relação sexual demanda uma certa maturidade para que seja feita de forma saudável para ambos os participantes. 

O ponto que gostaria de ressaltar aqui é que para tentar justificar a proibição do sexo antes do casamento por meio do texto bíblico várias vezes se faz um uso perverso do texto, forçando alguns, deixando de fora pontos muito mais importantes na dinâmica relacional em nome de uma fixação na proibição do sexo.

Queria fazer uma análise de todos os versículos utilizados para "proibir" o sexo antes do casamento, mas ainda não tive tempo para tal, quem sabe em outros posts aqui no blog? 

sábado, 15 de junho de 2013

A igreja evangélica em Belo Horizonte e os protestos no Brasil



Observando toda a onda de manifestações que estão acontecendo no Brasil contra o aumento das passagens do transporte público, contra a corrupção, contra a violência, a insegurança e tudo que tem assolado o Brasil em seus 513 anos de existência me deparo com algo muito interessante. As diversas manifestações trazem consigo um sentimento  de união em torno de uma causa comum. É como se desde 1992 com o Impeachment de Collor esta união se manifestasse apenas durante os jogos da seleção de futebol ou volei, em torno de algumas competições esportivas esparsas, mas agora não mais. O povo se une em nome de causas que afligem a todos, interferem na vida de todos  sobre as quais não dá mais para se calar. Talvez o grito engasgado de vários brasileiros tenha conseguido sair e os protestos que começam a acontecer sugerem que mudanças drásticas estão para acontecer.

No entanto, algo muito curioso me espantou. A igreja evangélica não se pronunciou, não apoiou, não se fez ouvir, não comentou em hora nenhuma sobre os diversos protestos que vem acontecendo. Entrei no site das igrejas evangélicas mais "famosas" de Belo Horizonte tais como a IBL (Igreja Batista da Lagoinha), IBG (Igreja Batista Getsêmani), Sara Nossa Terra e em nenhuma delas há nenhum tipo de mensagem, nenhum tipo de análise sobre o que vem acontecendo no país. Este fato nos mostra um pouco da face da igreja evangélica em Belo Horizonte.

Em grande parte uma igreja que se omite de sua função social, uma igreja narcísica que olha apenas para si mesma. Enquanto diversas coisas acontecem na cidade, diversos protestos, diversas mudanças, é como se a igreja se sentisse "fora do mundo". É como se ela estivesse preocupada apenas em manter o seu próprio status quo. Em seus sites vemos apenas notícias de acampamentos, retiros espirituais, programação nos templos e coisas que dizem respeito apenas a si mesma.

Uma igreja que não dialoga com o mundo é uma igreja que não tem sentido para existir. Interessante é que se voltarmos um pouco no tempo e pegarmos o texto bíblico veremos que todos os exemplos para a igreja cristã se posicionaram sempre a favor dos oprimidos e dos que não tem parte na Terra. Poderíamos citar o exemplo de Jesus que expulsa os cambistas do templo, denunciando toda a corrupção que ali habitava. Ao invés de se retirar do mundo, procurar outra sinagoga onde ir, Jesus se colocou como aquele que luta contra aquilo que estava errado, luta contra a corrupção praticada diante dos seus olhos. Outro exemplo que temos são os próprios profetas durante os reinados dos diversos reis de Israel e Judá. Jeremias, Ezequiel, Elias, todos eles denunciavam o abuso de poder dos governantes, se envolviam na luta pelo direito dos pobres, dos órfãos, dos que são maltratados, etc.

Em todos os exemplos bíblicos não há um que tenha se afastado, que não tenha se posicionado diante da situação que afligia o povo. No entanto, hoje as igrejas evangélicas se colocam à margem de toda a onda de protestos. Elas não se posicionam, não apoiam, e isso é algo preocupante. Todos os exemplos bíblicos nos incita a posicionarmos enquanto cristãos.

Qual a função desta igreja que não se coloca como defensora da causa do oprimido, mas se coloca como aliada de um sistema repressor? Qual a função dos pastores que supostamente deveriam "conduzir" o povo rumo ao esclarecimento, mas ao invés disso obscurece sua audiência em nome de uma metafísica onde o céu deve ser buscado e a Terra pouco interessa para o "peregrino em terra estranha" ?

Os exemplos bíblicos nos dizem completamente o contrário. Lutar contra as estruturas repressoras deveria estar na ordem do dia das igrejas evangélicas. De que adianta realizar os cultos normalmente enquanto o mundo fora do templo sofre? Ouçamos as palavras de Tiago que nos diz "E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? " ( Tiago 2: 15,16).

De que adianta realizar seus cultos, fazer suas orações, clamar para que "Belo Horizonte seja do Senhor Jesus" se na hora de lutar contra a opressão a igreja evangélica se omite de sua função? Algo que aprendi muito cedo é que Deus nunca vai fazer aquilo que o homem deve fazer. Assim como no exemplo de Lázaro que Jesus diz: "Tirai a pedra" para que o milagre fosse feito e Lázaro pudesse ser ressuscitado, tem uma parte que cabe ao homem fazer. Obviamente Jesus poderia ter mandato a pedra sair da frente do túmulo e depois realizado o milagre, mas optou por incluir aqueles que estavam ali, e para isso, os que estavam ali precisavam fazer a parte que lhes cabia no processo. 

O discurso de que "Deus está no controle" não serve para isentar os cristãos de sua participação contra as estruturas repressivas. A agressividade é uma faceta natural do ser humano e cabe a ele saber utilizá-la em nome da justiça, do amor. A agressividade usada desta forma é vista nos profetas, no próprio Jesus de forma que seria possível pensar em uma "teologia da violência". Violência aqui entendida não como gratuita, não como vandalismo, mas como agressividade que se coloca em nome do amor e da justiça. Esta justiça, este amor não em nome de si próprio, mas sempre em nome de um outro. Uma violência que se justifica em nome de melhores condições de existência, que faz uso da agressividade para lutar por justiça. (Este ponto aqui carece de mais esclarecimentos que não tem como explicitar neste texto, mas é algo interessante a ser pensado)

Da mesma feita, é preciso que a igreja evangélica se posicione diante dos acontecimentos, e faça voz pelos que não tem parte na terra, pelos que são oprimidos diariamente por um sistema repressor. Que a igreja seja uma das que luta, uma das que se manifesta, uma das que agremia pessoas para a causa e vá a luta por um mundo melhor, por fazer vir a nós o reino de Deus que é um reino de paz, justiça e amor.


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sobre Vasti




Outro dia estava pensando sobre Vasti, a esposa do rei Assuero descrito no texto bíblico como uma mulher muito formosa e que se recusa a cumprir uma ordem do rei durante uma festa. O rei, muito furioso e ouvindo o conselho dos seus conselheiros, abre uma espécie de concurso para que outra mulher assuma o lugar de Vasti. Depois disso nada mais se fala sobre ela.  Esta história está descrita no primeiro capítulo do livro de Ester.

O que me chamou a atenção é que o ato de transgressão de Vasti a fez perder seu lugar de companheira do rei Assuero, que na época seria o rei mais poderoso da Terra. O texto bíblico não diz o porquê Vasti se negou a ir à presença do rei, mas fala apenas que ela se negou. Isso com certeza espantou a todos na festa e aí está talvez a coisa mais interessante deste pequeno relato.

Vasti se colocou contra todo o status quo da época que ditava que a mulher deveria fazer o que o homem mandasse, e no caso do rei, sob penas severas. (o que no caso de Vasti foi a expulsão da convivência com o rei). Esta postura fica clara a partir da fala dos próprios conselheiros que ficaram com medo de que o exemplo de Vasti fosse seguido por outras mulheres e a partir daí viesse a desordem, a bagunça, a falta de controle por parte do homem.

Vasti é colocada pelos príncipes como um mau exemplo a ser seguido e os príncipes fazem de tudo para impedir que tal coisa aconteça. Esta história é interessante uma vez que trata de um ato de protesto feminino frente a dominação e ao modo como as coisas aconteciam no império de Assuero. Ao se colocar contra a ordem do rei, Vasti dá voz às outras mulheres; i.e, o ato de Vasti a coloca como transgressora e como modelo.

Vasti se coloca como um sujeito que escolhe e não apenas que obedece. O ato de Vasti nos leva a pensar que várias vezes a transgressão  precisa ser feita para que a sua voz seja ouvida. E esta transgressão às vezes será feita contra uma figura de autoridade, que no caso específico seria autoridade tanto política quanto familiar. Vasti vai contra o rei e contra o marido. Ela está disposta a lutar contra a ordem do rei e ao mesmo tempo contra a ordem do "chefe da casa". A transgressão de Vasti adquire um caráter político que faz surgir a necessidade de uma nova promulgação real. Este ato jamais aconteceria se Vasti se visse como "apenas mais uma entre mulheres e concubinas". Foi preciso que a condição de sujeito aparecesse para que ela se colocasse como alguém capaz de negar um desejo da autoridade. Este ato a coloca como livre e não submetida a ninguém a não ser ela mesma. O ato transgressor de Vasti a liberta da dinâmica do palácio e implica em uma nova época no reino de Assuero. Há toda uma mobilização posterior para que se escolha a nova rainha que reinará no lugar de Vasti.

Hoje em dia várias manifestações estão em voga. A luta contra o status quo, a luta pelos direito das mulheres, homossexuais, etc. tudo isso aparece na pauta do dia e cada vez mais outras demandas vão surgindo, o que nos leva a pensar e repensar diversas posições que adotamos.
O que aprendemos com Vasti é que é preciso coragem para se levantar contra o status quo, mesmo que isso gere conseqüências que a princípio nos serão danosas, mas que não podem deixar de serem feitas e depois nos mostra que a mulher pode e deve exercer o seu papel em nome de sua própria liberdade, se fazendo ouvir e se colocando como sujeito que não apenas se submete, mas que luta por aquilo que acredita ser correto.

Ainda hoje vivemos em um mundo extremamente machista onde a mulher é tratada de forma diferente do homem em diversos aspectos, tanto socialmente, economicamente, etc. No entanto, acredito que Vasti seja um bom exemplo de como é possível às mulheres se fazerem ouvidas, e isso a  partir do protesto, a partir da tomada de posição frente ao mundo tão machista em que vivemos. Questões em relação ao próprio corpo, em relação ao direito de gerirem o seu tempo, de fazerem ouvidas e tantas outras demandas atuais.

Que o ato transgressor de Vasti possa servir de exemplo para os nossos dias em que o reino de Assuero se mostra cada vez mais opressor, e o assujeitamento se mostra cada dia mais veemente. Que tenhamos a consciência de que o ato de uma pessoa tem muito valor para a mudança do status quo, e que aprendamos com Vasti que nos mostra que às vezes é preciso se colocar contra o opressor para que a liberdade seja adquirida e a dignidade mantida.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

30 anos - Um olhar para frente e um olhar para trás





Ensina a contar os nossos dias para que alcancemos corações sábios, já clamava o Salmista. (Sl 90:12)
Eu exalto a alegria (Ec 10:15)
É bom estar no mundo. (Irmãos Karamázov p. 585)

Para mim, todo aniversário meu é um momento para olhar para trás e tentar fazer uma retrospectiva das coisas que aconteceram no ano que passou. Não digo que sempre consigo fazer isso, mas sempre bate aquela nostalgia de que mais um ano se foi, de que mais experiências adquiri; um olhar para o passado como quem procura traçar uma espécie de itinerário percorrido até o momento.

Procura às vezes vazia de sentido, mas muito no espírito daquilo que o salmista nos conclama a fazer.
Este aniversário ainda tem um quê de especial, afinal completo 30 anos. Não apenas mais um ano que passou, mas talvez o início de uma nova fase.

Eu sempre tive a sensação de que aos 30 a pessoa pode dizer de fato que é "adulta". Ela não é mais simplesmente um "jovem". Claro que ela pode ser um "adulto jovem", "jovial", etc, mas a idéia que sempre tive é que os 30 anos marcam uma fase na vida do indivíduo que o coloca no "mundo dos adultos". Pode ser que não faça sentido nenhum isso que falo aqui, mas sempre tive esta sensação, e agora que chego a esta idade, esta sensação bate com mais força.

Posso dizer que me sinto satisfeito com o que consegui fazer até agora com minha vida. Não só do ponto de vista econômico, familiar, escolar, etc, mas feliz comigo mesmo. Satisfeito com o como as coisas estão caminhando.

Tenho tudo o que preciso para ter um coração grato. Chego aos 30 em paz comigo, bem resolvido com várias coisas, almejando outras, mas sem planos mirabolantes.

Voltando ao salmista, sempre me perguntei pelo o que será que ele queria dizer com "contar os nossos dias"?

Hoje, já penso que a proposta do salmista é que saibamos contar não apenas como quem enumera os dias, afinal isso faria muito pouco sentido, mas como quem narra seus dias. Ao narrarmos os nossos dias, somos obrigados a olhar para trás, somos forçados a trazer à memória as nossas experiências, os desejos realizados, os fracassos, somos novamente envolvidos em nós mesmos em uma dinâmica que nos leva a olhar para nós e nos envolvermos novamente conosco.

Como todo aquele que narra traz consigo algo de si, assim também nós ao contarmos os nossos dias somos convidados a nos rever, e talvez por isso a conclusão seja o alcance de "corações sábios".  Um exemplo muito legal que teríamos seriam os próprios mitos. São narrações que procuram dar sentido ao mundo, colocar ordem diante do caos, dar uma lente para que possamos enxergar as coisas. Estas narrações falam talvez mais de quem enuncia do que de qualquer outra coisa. O mito nos convida a sairmos de nós mesmos, em tentar entender o mundo que nos rodeia, mas tudo isso pelo poder narrativo, o poder da palavra.

O "contar os dias" ainda pressupõe uma consciência ciente da passagem do tempo. Em um mundo que muda cada vez mais rápido, onde somos incitados à idéia de que viveremos para sempre bastando para isso estar "atualizado" das novas tendencias, num constante renovar de si mesmo pela moda, ou pela música, ou qualquer novo produto que se apresenta, a consciência de que os dias estão passando vai-se perdendo. Cria-se a ilusão de que se pode ser "forever young", ou que se pode se esconder da dinâmica do tempo por meio dos diversos produtos oferecidos. Uma tentativa constante de escapar da morte por meio de um "excesso de gozo". Tentativa fracassada  de subir ao Olimpo, ou voar como Ícaro. Fracassada pela própria dinâmica da vida que tem por definição um fim do qual não podemos escapar por mais que tentemos adiar.

A consciência da morte nos leva a valorizar mais a vida, mas quando a morte é "esquecida", a vida se perde em um mero "viver-na-busca-de-um-gozo". A consciência do tempo nos faz olhar para o futuro, nos faz perceber que a cada dia que passa a morte se aproxima de nós, pois nós caminhamos em direção a ela a cada momento que passa. Os dias que passam tem fim, e esta consciência nos faz valorizar ainda mais o tempo que nos resta. Nos incita à alegria, ao buscar uma vida que tenha sentido para além do mero acúmulo de dias...

Chega a ser piegas dizer que "somos aquilo que nossas experiências fizeram de nós", mas acredito que somos aquilo que nós fizemos com aquilo que as experiências fizeram de nós, ou seja, não somos passivos diante das experiências que nos moldariam da forma como elas quisessem, somos antes de tudo ativos, livres para dar um sentido positivo ou negativo às diversas experiências pelas quais passamos. Este sentido é dado por nós mesmos no decorrer da caminhada que percorremos.

Dessa forma, olho para trás nestes 30 anos de existência e me vejo em um bom lugar. Tenho uma família maravilhosa, amigos maravilhosos, pessoas com quem me importo e se importam comigo de forma inefável. Isto para mim é extremamente significativo e tenho muito o que agradecer por isso.
Chego aos 30 bem consciente de várias limitações minhas, consciente de que não posso fazer tudo o que gostaria, de que abrir mão das coisas não é sinal de fracasso, isso eu penso ser de um ganho enorme para a minha vida e para quem me rodeia.

Ao mesmo tempo olho para frente, tendo a consciência de que posso alcançar várias coisas que ainda não alcancei, posso viver várias coisas que ainda não vivi, mas tendo em mente que o puro gozo por si só não satisfaz o desejo de sentido que em mim habita. Olho para a frente, mas tendo a consciência de que nada dura para sempre, de que a morte se impõe a todos de forma inexorável.
Mas sabendo do fim ao qual todos estamos destinados, busco viver a vida de forma que ela possa ser inefável por tamanha beleza.

Bons 30 anos vividos até aqui. Que venham os próximos 30 , e depois os próximos 30.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Um vazio ...







E como representar o vazio? Nele cabe todas as coisas, mas o que nos mostra é tudo o que nele não há. Talvez esta seja uma boa analogia do nosso homem contemporâneo. Sempre impelido a ser alguém de sucesso, a ter as coisas a ser autêntico. Tudo isso para esconder talvez este vazio que o habita e que a cada dia mais vem à tona. Tentativa desesperada de encontrar amparo no trabalho, no lazer, nas tarefas diárias, afinal quanto mais se mantiver ocupado menos tempo sobrará para tentar lidar com a tela em branco. Nesse sentido faz coisas. Coisas sem sentido para ele, coisas que são meramente meio para outro fim uma vez que o fim último se foi. Nenhum télos, nenhuma referência. Nada pelo qual possa lutar a não ser manter a sua própria existência vazia. 

Um homem atormentado por dentro e por fora, mas sem escape definitivo, afinal quando se perde o norte é difícil dizer para onde se segue. É um homem "desbussolado" para usar a expressão do Lipovétsky. Nada o atrai, mas ao mesmo tempo tudo o que é novo é passível de ser exposto na tela em branco. A adesão ao novo aparece como oásis em meio ao deserto de sentido. Sem nada além dos objetivos imediatos para lutar o novo sempre se faz necessário e dessa forma  paradoxalmente tudo o atrai. Daí talvez a adesão maciça diante de qualquer "movimento". Quer seja a favor da maconha, causa LGBT, feminismo, etc tudo servindo a propósitos, sonhos provisórios facilmente realizáveis e da mesma forma facilmente substituídos por outros assim que aqueles se tornarem "velhos". 

Tal vazio se manifesta em praticamente todas as áreas da vida do nosso homem contemporâneo. Os relacionamentos não escapam disso. Diante da constante necessidade do novo para preencher o vazio que o assola e o faz cair em um dinâmica altamente narcísica o encontro com o outro também se torna desnecessário, ou se necessário, apenas como instrumento para se obter algo. Nenhum compromisso mais sólido, nenhuma "aderência" às relações. Todas elas podem ser facilmente descartadas à medida que não suprem mais a demanda. A tensa dinâmica que envolve se relacionar de fato com o outro é facilmente rechaçada pois este outro se torna "algo a mais a se preocupar" e ao mesmo tempo é fator de "privação do gozo". Gozo este buscado avidamente em todas as situações, de forma que se torna praticamente impraticável sofrer por algo. Ao invés do sofrimento busca-se outras formas de gozo, pois sofrer é perder tempo na dinâmica atual.  É facilmente visto como que a lógica do acúmulo se apropria até mesmo dos relacionamentos. Esse outro não-necessário apenas faz com que o sujeito se volte cada vez mais para si tornando a coisa um grande ciclo. Toda dimensão do outro é suprimida, engolida pelo Eu de forma que no final aparece apenas Narciso com todo seu esplendor. 

E assim nosso homem contemporâneo segue, se enchendo de coisas sem se preencher de sentido.