segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Um desejo realizável




Se em 2013 conseguirmos ser melhores para conosco e com os que nos rodeiam, mais próximos uns dos outros, nos importarmos com os outros além de nós mesmos, fizermos atentos os nossos ouvidos àqueles que tem algo a nos dizer, mas por estarmos tão presos a nós mesmos não os ouvimos, se conseguirmos descentrarmos de nós mesmos e centrarmos na realidade que nos ronda e às vezes é tão perversa acredito que teremos um 2013 melhor que 2012.

O engajamento no mundo a fim de transformá-lo, talvez não com grandes atos, mas com gestos pequenos,

E de gesto em gesto acredito que 2013 será um excelente ano.


Um desejo realizável !

sábado, 29 de dezembro de 2012

O dízimo e sua função social. Uma análise bíblica - Parte 2






Percebemos no texto bíblico que os princípios do dízimo se perderam com o passar do tempo.
O povo de Israel se voltou para a atitude exterior do dízimo e esqueceu de seus princípios. Deus, várias vezes, afirma que Ele não mais aceitaria os holocaustos as ofertas e os dízimos que o povo estava dando, porque eles simplesmente estavam preocupados com a forma exterior e não com os princípios. Em Miquéias 6:6,7 pode-se ver que a questão exterior não é aquela que Deus quer, mas sim que o povo se voltasse para agir retamente para com Deus.
Outra vez em Isaías 1:11-17, Deus novamente admoesta o povo para que não apenas  trouxessem os sacrifícios e ofertas, mas que se limpassem e defendessem  a causa dos órfãos e das viúvas. A mesma admoestação foi dada por Jesus aos fariseus em Mateus 23: 23, quando Jesus afirmou que os fariseus davam o dízimo da hortelã e das hortaliças e ignoravam o mais importante da lei que é a justiça, a misericórdia e a fidelidade. O povo passou então a dar mais ênfase para a forma externa do que para os princípios.
O que não se pode esquecer é que paira sobre o povo de Israel a doutrina da retribuição como descrita muito bem no livro de Jó. Segundo esta doutrina, Deus recompensa os bons e pune os maus. Portanto, a noção do dar o dízimo, enquanto obra, está muito presente na cabeça do israelita que assim o faz para que as bênçãos do Senhor o alcance.  Esta doutrina que ganha uma ênfase muito grande no deuteronomio será vista ainda hoje como uma fonte de jugos inimagináveis por parte de várias lideranças evangélicas. Tanto Jó quanto o Eclesiastes contrariam tal doutrina em seus escritos e mostram que a relação com Deus não deve se pautar em uma relação retributiva. No caso de Jó, a própria vida dele como contada no texto bíblico demonstraria que nem sempre quem faz o bem recebe o bem, e nem quem faz o mal recebe o mal, esta é a ênfase em todo livro de Jó. No caso do Eclesiastes, este deixa bem claro quando afirma que "que há justos a quem sucede segundo as obras dos ímpios, e há ímpios a quem sucede segundo as obras dos justos." Ec 8:14. Ou seja, a doutrina da retribuição já é seriamente questionada desde o séc. II a.C (data provável da escrita de Jó e Eclesiastes), e é incrível ver como que até os dias de hoje ela ainda é muito utilizada para escravizar vários cristãos nas igrejas evangélicas. No entanto, como visto, o exterior para Deus é o que menos importa, e sim a intenção do coração. No entanto, o exterior é o que é enfocado pelo povo.
Jesus traz de volta a questão do dízimo para o âmbito do coração ao falar aos fariseus sobre suas práticas que ignoravam os princípios da lei.
Jesus ao mostrar que o  dízimo não deveria focar apenas na exterioridade da ação, mas deveria cumprir o propósito ao qual foi instituído procura restaurar a noção original da prática dizimal. Não se trata de dar o dízimo para "obedecer", mas trata-se de dar o dízimo porque o amor ao próximo está em questão. Ao devolver o dízimo ao templo, eu permito que aquele que não tem parte na terra possa ir ali e se alimentar e ter o sustento necessário para sua sobrevivência.
O mais importante na pregação de Jesus sempre foi a relação de amor que devemos estabelecer com o próximo, e isso fica muito claro também quando Jesus critica a prática farisaica e de vários outros que tentavam "barganhar" com Deus em nome de uma suposta obediencia a um princípio que há muito já havia deixado de ser focado. A exterioridade da ação que tinha como alvo o "ser visto pelos homens" aparece a Jesus como algo digno de condenação por não visar o amor a Deus e nem ao próximo. O dízimo entendido dessa forma em nada coopera para a implementação do reino de Deus que é sobretudo um reino de justiça social e paz. 
Pode-se notar, na exposição feita até agora, que Deus deixa bem claro qual o seu intuito em estabelecer a lei do dízimo.  No entanto, o que se vê nos dias de hoje é um abandono dos princípios e uma acentuação no âmbito do externo.
Para justificar esta posição, passamos agora à análise do texto de Malaquias 3:8-10 que são os versículos mais usados para justificar a cobrança dos dízimos dentro das igrejas evangélicas atualmente.

sábado, 22 de dezembro de 2012

O dízimo e sua função social. Uma análise bíblica




A questão do dízimo é um assunto muito estudado e muito falado dentro das igrejas evangélicas, e fonte de muitos embates entre os que defendem uma postura conservadora, ou seja, no sentido em que o dízimo deve ser dado na igreja e outros que afirmam que os dízimos se aplicam apenas aos judeus e por isso não deve ser exigido para os gentios.
O interesse do presente texto é elucidar o propósito do dízimo desde a sua instituição pela lei, passando pelas conotações adquiridas pelo dízimo, até os dias atuais.
O presente texto não terá a pretensão de esgotar o assunto e nem terá um caráter exegético, mas sim um caráter hermenêutico, tendo em vista a exposição da questão dos dízimos. Nos dias atuais onde cada vez mais vemos o evangelho sendo leiloado em uma dinâmica altamente repressora acredito ser importante voltarmos ao texto bíblico de forma a tentar entender de uma forma melhor alguns conceitos que hoje geram tantas confusões. Pretendo falar nos próximos textos sobre esta questão do dízimo. Nesta primeira parte falarei sobre a instituição do dízimo e a sua dinâmica exposta no antigo testamento. Em um segundo momento, pretendo abordar a relação de Jesus para com o dízimo, em uma terceira parte, uma exposição dos texto de Malaquias 3 que sem dúvida é o mais utilizado para o terrorismo evangélico em relação ao dízimo, e em uma última parte, uma análise crítica da questão do dízimo nos dias de hoje. 
A primeira citação que temos a respeito do dízimo se encontra em Gênesis14:20 [1] onde Abraão dá o dízimo a Melquisedeque depois de ter derrotado os reis que haviam seqüestrado seu sobrinho Ló. “E bendito seja o Deus altíssimo, que entregou seus inimigos em suas mãos e Abraão lhe deu o dízimo de tudo” (Gn 14:20).
A figura de Melquisedeque é emblemática no Antigo Testamento (AT) uma vez que ele é tido como “sem pai sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias, nem fim de vida, feito semelhante ao filho de Deus” (Hebreus 7:3). Muitos acreditam se tratar de uma teofania, (Uma aparição visível de Deus no AT) uma vez que ele aceitou o dízimo de Abraão. O que é relevante para o presente texto é que Abraão deu o dízimo a Melquisedeque em forma de agradecimento pela vitória alcançada. Tem-se então a primeira forma que o dízimo foi usado: exprimir agradecimento por uma vitória.
O dízimo depois reaparece em Gn 28:20 na figura de Jacó que promete a Deus o dízimo se Deus lhe garantisse um bom êxito em sua empreitada.



“Então Jacó fez um voto, dizendo: Se Deus estiver comigo, cuidar de mim nesta viagem que estou fazendo, prover-me de comida e roupa, e levar-me de volta em segurança à casa de meu pai, então o Senhor será o meu Deus. E esta pedra que hoje coloquei como coluna servirá de santuário de Deus; e de tudo o que me deres certamente te darei o dízimo” (Gn 28:20-22).


Iinteressante notar que estas duas primeiras citações do dízimo se encontram antes do estabelecimento da lei mosaica. Tanto Abraão quanto Jacó se encontravam cronologicamente antes da instituição da lei e, no entanto, já dizimavam e prometiam dízimo como forma de agradecimento.
Quando a lei é instituída por Deus através de Moisés, Deus deixa claro qual seria a prática a ser adotada em relação aos dízimos. Em Levítico 27:30, Deus afirma “Todos os dízimos da terra, seja dos cereais, seja das frutas, pertencem ao Senhor, são consagrados ao Senhor.”
Em Nm 18:21, 24, 26 e 28, o dízimo foi entregue aos levitas em retribuição ao trabalho que eles exerciam na Tenda do Encontro. A partir desse momento se institui que apenas os levitas poderiam se achegar à Tenda do Encontro e foi vetado a qualquer outro o fazê-lo. Os levitas não receberiam herança sobre a divisão das terras. A herança deles seria o Senhor e, em lugar da terra, o Senhor concedia aos levitas os dízimos que os israelitas apresentassem à Ele  (Nm18:24). No entanto, os levitas também deveriam dar o dízimo dos dízimos ao sacerdote, ou seja, a melhor parte dos dízimos deveria ser dada ao sacerdote. Os levitas poderiam comer esta parte e ela seria considerada como o salário pelo trabalho executado na Tenda do Encontro.
Percebe-se aqui que Deus dá o dízimo que antes pertencia apenas a Ele como relata em Lv 27:30 aos levitas, uma vez que estes não tem parte na terra. Deus, ao fazer isso, fica com apenas o dízimo de todos os dízimos que era dado pelos israelitas.
Esta entrega de 90% da receita para os levitas tem uma função social. Primeiramente que ela era o pagamento pelo trabalho exercido pelos levitas no templo. Em segundo lugar, Deus, ao passar o dízimo aos levitas, tem outro intento que ficará evidenciado no texto de Deuteronômio.
Em Deuteronômio, Deus novamente dá outras instruções em relação ao dízimo. Em Deuteronômio 12 Deus instituiu o local correto onde o dízimo deveria ser dado. Ao chegar neste lugar, o povo deveria se alegrar perante o Senhor e comer tudo o que tivessem levado para o sacrifício e para o dízimo. Todos poderiam comer fartamente, até mesmo os impuros poderiam comer aquilo que seria entregue ao Senhor no local que Ele determinasse. Deus deu instruções para que o povo se alegrasse, mas sem esquecer-Se dos levitas que habitavam com eles, uma vez que estes não tinham parte na terra. A única restrição era o sangue, que não deveria ser comido por ser vida (Dt 12:23). A entrega do dízimo foi seguida do sentimento de alegria. A ocasião era ocasião para festa, e Deus queria que isso fosse feito por quem estivesse ali, era um momento de regozijo e não de constrangimento.
Em Dt 14; 24-29, Deus novamente manda que o povo coma o dízimo na presença do Senhor no local que Ele escolheu para tal.

“No entanto, se o local for longe demais e vocês tiverem sido abençoados pelo Senhor, o seu Deus, e não puderem carregar o dízimo [...] troquem o dízimo por prata, e levem a prata ao local que o Senhor, o seu Deus tiver escolhido. Com a prata comprem o que quiserem: bois, ovelhas, vinho ou outra bebida fermentada, ou qualquer outra coisa que desejarem. Então juntamente com suas famílias, comam e alegrem-se ali, na presença do Senhor, o seu Deus. E nunca se esqueçam dos levitas que vivem em suas cidades, pois eles não possuem propriedade nem herança própria. Ao final de três anos, tragam todos os dízimos da colheita do terceiro ano, armazenando-os em sua própria cidade para que os levitas, que não possuem propriedade nem herança, e os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade venham comer e saciar-se, e para que, o Senhor o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho de suas mãos.”

Nota-se aqui Deus instituindo o dízimo como fator de igualação social. Deus está preocupado com a alegria do povo, como também em saciar o órfão, a viúva e o estrangeiro.  Percebe-se que tanto em Dt 12 como em Dt 14, o dízimo foi comido pelo povo que celebrou as bênçãos de Deus. No primeiro texto (Dt 12), todos podem comer do produto do dízimo e se alegrar perante o Senhor sem se esquecerem dos levitas que habitavam entre eles. No segundo texto (Dt 14), os órfãos, os estrangeiros e as viúvas também deveriam ser lembrados. O dízimo da colheita do terceiro ano era para que os levitas, os órfãos, as viúvas, e os estrangeiros pudessem comer e se saciar. No terceiro ano, os que não tinham parte na terra poderiam comer e se saciar. No entanto, pode-se notar que esta admoestação é um reforço à festa que era feita na entrega do dízimo, onde, tanto puros, quanto impuros, podiam comer e se alegrar na presença do Senhor.
A questão do dízimo é que agora ele não é mais somente dos levitas, mas pertence a todos os que “não têm parte na terra”, e aos órfãos, aos estrangeiros, as viúvas, e aos levitas.
O dízimo adquire no Deuteronômio um aspecto fortemente social, visando uma igualdade entre o povo. Ao festejar com o dízimo o povo de Israel deveria ter em mente todos os que não tinham parte na terra. O dízimo que antes pertencia somente ao Senhor (Lv 27:30) passou aos levitas (Nm 18: 21-28) e em seguida passa para todos os que não têm parte na terra (Dt 14: 22-28).
Todo esse movimento em torno do dízimo mostra que a preocupação central de Deus ao instituir o dízimo era que o povo se lembrasse D’ele, que o povo tivesse alegria  e que a sociedade pudesse ter igualdade social.
Deus não estava preocupado com o dinheiro que o povo daria, mesmo porque, a maioria do dízimo era dada em forma de bens, colheitas etc. Ele estava preocupado com “saúde” do povo. Ele queria que o povo visse Nele a fonte de todo provimento e visse que esse provimento deveria ser igual a todos os membros da comunidade. Daí o dízimo deixa de ser apenas objeto de agradecimento como nas histórias de Abraão e Jacó e passa a ter uma conotação altamente social.
Esta evolução da noção e função do dízimo pode ser vista no decorrer das passagens que foram analisadas acima. O que foi visto até agora é que o dízimo sofreu várias novas aplicações com o passar das gerações bíblicas.
O final da lei sobre o dízimo recai na alegria, na memória de Deus, e no bem-estar social do povo.
(...)  



[1] Para todas as referencias bíblicas será adotada a versão NVI- Editora Vida 2000