terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sobre o Queermuseu e o fechamento pelo Santander





O assunto do fechamento de uma exposição de arte pelo Santander depois de protestos encabeçados pelo MBL realmente eh um assunto bem polêmico. Tanto da legitimidade da arte em "profanar" elementos religiosos quanto o fato do banco Santander fechar a exposição por conta do pedido de um falso moralismo do MBL.

Penso que a questão eh bem sutil e passa pelo propósito da arte em si e passa também pela onda neoconservadora pseudo-moralista que enfrentamos atualmente no mundo. É bem claro algo que vários sociólogos contemporâneos já apontaram que eh o fato do sujeito hipermoderno ser um sujeito desbussolado. Diante dessa situação qualquer proposta de enfrentamento eh visto por ele como ameaça. Nesse sentido a arte sempre foi confrontativa e por isso ela está respaldada na sua própria função. Freud já nos dizia no seu livro O futuro de uma ilusão (1927) que a arte é uma grande formação substitutiva para as renúncias mais profundas do indivíduo diante da civilização, ou seja, por meio da arte o sujeito sublima suas pulsões sexuais reprimidas dando à sociedade uma identificação proporcionando assim a partilha de experiências emocionais extremamente valorizadas. Essa expressão várias vezes se mostra de forma contestadora e traz para o sujeito algo de si mesmo que havia recalcado. A arte possui um caráter crítico e questionador e dessa forma é algo que várias vezes incomoda o sujeito. Este homem fragmentado, desbussolado, sem amarras da hipermodernidade não lida bem com o confronto, afinal, ele é ensinado para ser "cool", para que nada o destempere. Esse sujeito diante de uma arte questionadora está sempre em apuros.

O fato de símbolos religiosos supostamente terem sido profanados e esse fato servir de estopim para a revolta e critica apenas atesta a hipocrisia social que vive como se deus não existisse, mas "defende" os símbolos religiosos quando convém. Curioso o fato de que vários desses que defendem rigidamente a suposta santidade dos símbolos desconhecem o seu significado. Isso traz elementos interessantes para pensarmos a própria função da religião em uma sociedade hipermoderna. É bem visível para qualquer pessoa minimamente atenta que a religião está em voga nos nossos tempos. Quer sejam os movimentos tipo nova era, espiritualidades orientais, etc., quer seja pelo aumento surpreendente das igrejas neo-pentecostais e movimentos carismáticos católicos, sem contar o aumento de setores extremamente fundamentalistas das religiões católicas e das religiões islâmicas. Esta situação por si só mostra esse lugar espinhoso que a religião ocupa no nosso tempo, ou seja, ao mesmo tempo capaz de produzir vertentes extremamente fundamentalistas e vertentes extremamente lights de si mesma.

A arte e a religião, via de regra sempre andaram juntas, pelo menos desde a idade medieval. Freud no mesmo livro citado acima, e também no seu famoso Mal-estar da civilização (1930) coloca a religião como uma possível formação substitutiva para o sujeito, embora mais calcada na ilusão do que em uma espécie de sublimação como a arte. Dessa forma podemos ver que arte e religião caminham juntas e estão entrelaçadas como criações humanas para de alguma forma lidar com seu desamparo estrutural (no caso de Freud), ou , se lembrarmos de Hegel, como forma de manifestação do espírito absoluto. Mas o que faz essa união de tanto tempo entre arte e religião quer seja de forma conciliadora como na época medieval, quer seja de forma contestadora como aparentemente foi a exposição do Santander gerar tamanha revolta por parte de setores conservadores em dias atuais?

Uma pista para entender essa revolta é um pouco do que comentamos mais acima, ou seja, o sujeito hipermoderno, esse sujeito "cool" não consegue lidar com nenhum tipo de contestação crítica, pois não se ancora em nada a não ser valores extremamente rasos e vazios que não são capazes de oferecer balizas para ele. Quando a crítica da arte aparece a primeira tendência desse sujeito é simplesmente manifestar o ódio diante da sua incapacidade de lidar com esse elemento contestador. Diante da impossibilidade de lidar com o confronto o sujeito nega a possibilidade da arte numa espécie de negação do seu próprio núcleo traumático que provoca mal-estar.

Uma segunda pista é o falso moralismo contemporâneo que se desenvolve rapidamente nos últimos anos como resposta ao mesmo "desbussolamento" do indivíduo que precisa de respostas rígidas para tentar se localizar diante do mundo. Neste sentido a religião acaba sendo o lugar privilegiado onde isso se manifesta uma vez que ela se reveste de um caráter divino e atemporal. Diante disso esse pseudo-moralista contemporâneo se sente como uma espécie de profeta do antigo testamento que anuncia a profanação da religião e para isso faz uso de todo o seu ódio em direção a obra de arte. Curiosamente a religião que se tem em vista aqui é a religião meramente institucionalizada, aquela das construções, dos símbolos fechados, ou seja, extremamente diferente daquela que Tiago (Tg 1,27) chama de "religião verdadeira", ou seja, cuidar dos órfãos, das viúvas, dos que não tem parte na terra, etc., em suma, uma religião de forte apelo social no sentido de mitigar as desigualdades advindas das configurações sociais.

Um outro elemento extremamente interessante é o fato do banco Santander fechar ter fechado a exposição diante dos protestos de um pequeno setor da sociedade representada pelo MBL. É importante não esquecer que o Santander é um dos maiores bancos privados do mundo e obviamente até o seu suposto patrocínio pela arte e cultura não tem nada além do lucro em mente. Longe de ser um propagador isento da cultura, o Santander evidencia diante da sua atitude de fechar a exposição todo o jogo político e econômico que se esconde por trás da chamada "cultura contemporânea". Obviamente que há elementos políticos importantíssimos envolvidos e acordos espúrios para que tal exposição possa ocorrer, de forma que quando uma exposição ferir o establishment a mesma deverá ser novamente fechada. O MBL, esse grupo neofacista composto de jovens de classe média, mas que tem conseguido adesão por parte de muitos cristãos, artistas, líderes empresariais que compartilham de suas ideias, mostra novamente a sua face ideológica ignorante diante dos temas caros à sociedade quando pede o fechamento da exposição e mostra ainda mais sua face ignorante quando propaga ideias violentas contra a exposição tais como pichação no museu, briga com seguranças, etc.

A arte dentro do capitalismo, na maior parte das vezes, não passa de um produto visando gerar lucro para grandes conglomerados econômicos que a patrocinam tentando mascarar para a população a própria noção de produto envolvida na própria divulgação da arte. Dessa forma procura-se vender não um produto, mas uma ideia de que há uma face boa no capitalismo, pois ele promoveria a divulgação da arte. Essa é a ideologia em uma das suas faces mais cruas. O evento em questão se torna extremamente ambíguo, pois um grupo que se auto denomina "liberal" (Movimento Brasil livre) se coloca de maneira extremamente conservadora diante da arte que, por excelência, manifesta a liberdade do espírito humano. Esse paradoxo é o paradoxo típico da nossa sociedade hipermoderna, pois os dois lados não se mostram como opostos, mas dialeticamente embricados em uma espécie de negação da negação incapaz de gerar uma síntese viável, mas sempre recaindo novamente em novos obscurantismos.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

"E, tornando a inclinar-se, escrevia na areia." João 8:8




Jesus várias vezes alertou os seus discípulos de que as coisas nem sempre se resolvem por meio de palavras e discursos. No sermão do monte ele diz: "Não por muito falar que serão ouvidos" (Mt 6,7), afinal isso é o pensamento daqueles que não entendem o funcionamento das coisas. 
Em diversas ocasiões Jesus primava pelo exemplo, pela ação, do que propriamente pelo discurso explicativo. Se pensarmos bem, as próprias parábolas que Jesus contava tinham essa dimensão opaca da linguagem, mas tendo em mente que o foco não era o discurso a que a parábola remeteria, mas sim àquilo a que a parábola apontava, ou seja, não era no plano discursivo que a parábola faria sentido pleno, mas apenas quando aquela parábola se transformava em palavras transformadoras da vida do sujeito; e para isso era preciso que se transcendesse da linguagem da parábola para ficar com o seu sentido que era prático. Podemos citar como exemplo as parábolas do "filho pródigo", a parábola do "bom samaritano", em que todas elas apontam para uma dimensão prática em que não se trata apenas da compreensão de um discurso, mas sim da aplicabilidade por meio de uma ação transformadora da vida do sujeito. 

Em nossa sociedade pós-moderna somos sempre tentados a resolver tudo de maneira discursiva, pois esta é a maneira civilizada de tratar as coisas. Habitamos a linguagem, somos feitos dela, e por isso ela se mostra como a nossa forma privilegiada de se relacionar com o mundo. O mundo é linguagem. Isso aprendemos desde cedo. No entanto, nem sempre a linguagem deve ser verbal. A simetria entre o verbal e a linguagem nem sempre pode se dar de forma direta. Há diversas formas de dizermos as coisas e várias vezes a discursiva é a pior possível. Podemos dizer várias coisas de maneira prática por meio de ações silenciosas, por meio de gestos silenciosos, etc. Nem sempre é a palavra que nos livrará das tentações. 

Aprender que nem sempre é o discurso que nos livrará dos nossos problemas é um grande desafio para nós que habitamos a linguagem falada/discursiva. Criamos para nós que temos que ser bons argumentadores, que "provar o nosso ponto" é de fato a coisa mais importante diante de uma discussão ou diante de um problema. Tanto é assim que diante de problemas nós sempre tentamos racionalizar para compreender, circunscrever o problema por um discurso. Esta tentação discursiva diversas vezes nos conduz a problemas que nós mesmos criamos. 

Jesus era um exímio utilizador das palavras, mas também sabia a hora de falar pelo exemplo. Sempre me recordo do relato bíblico da mulher adúltera em que os acusadores trazem a mulher para que Jesus a condene e Jesus o que faz? Continua escrevendo na areia, ou seja, ele simplesmente não se pronuncia, não faz uso do discurso para defender seu ponto de vista, mas ao invés disso lança apenas um desafio: "Aquele que não tem pecado atire a primeira pedra." e volta a escrever na areia. Todo o trabalho posterior é feito pela consciência dos acusadores. Jesus demonstra ali que não era necessário levantar os porquês das atitudes dos acusadores, ou buscar os interesses íntimos que leva alguém a querer fazer um mal uso da lei para manter uma tradição, etc. Jesus não propõe um embate retórico, argumentativo com os acusadores, e reconhecer quando é o caso para tal atitude é sinal de sabedoria. Jesus neste episódio nos mostra que às vezes é a própria consciência do outro que precisa fazer o trabalho e não nós com o nosso discurso pronto, bem fundamentado, consciente, questionador, etc. 

Esta compreensão do quando falar e do quando calar é vital para nos mantermos saudáveis em nossos relacionamentos de qualquer tipo. Quer seja o relacionamento amoroso, quer seja o relacionamento entre amigos, quer seja o relacionamento entre irmãos, etc. Às vezes será o nosso exemplo, o nosso "escrever na areia" que fará com que o outro se conscientize do seu erro e não o nosso discurso, afinal, chega a ser um clichê afirmar que "ninguém muda ninguém", mas, no entanto, podemos afirmar que o nosso exemplo é capaz de mudar a forma como o outro vê a situação e isso pode ser extremamente benéfico para nós e para o outro. 

Não é pelo muito falar (verbalmente) que seremos ouvidos. Que possamos aprender a dizer pelo exemplo e sejamos como aquele que "escreve na areia" para poder dar espaço à consciência do outro que o conscientizará do que deve ou não fazer. 




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Dai-lhes vós de comer. (Lucas 9:13)





Dai-lhes vós de comer. (Lucas 9:13)
E depois disto designou o Senhor ainda outros setenta, e mandou-os adiante da sua face, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir. (Lucas 10:1)
Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros. (Jo 13,35)

Os textos de Lucas são bem interessantes para pensarmos diversas coisas. O texto de Lucas 9, por exemplo é repleto de histórias. Desde o envio dos discípulos, passando pelo questionamento de Herodes sobre Jesus e sua fama, seguido pela multiplicação dos pães. Depois disso uma questão fortíssima de Jesus sobre a forma como os discípulos o viam, uma fala incompreendida pelos discípulos sobre a ressurreição, seguido da transfiguração, seguido de uma expulsão de um demônio e uma querela sobre “quem seria o maior no reino de Deus” e terminando com um incentivo à tolerância. Todos esses eventos descritos em apenas um capítulo, e a meu ver mostrando como que as coisas estão extremamente imbricadas nos ensinamentos do Cristo.

Daí algo interessante que podemos extrair e trazer uma reflexão interessante para nós é que Jesus tem uma preocupação muito grande em fazer traduzir as suas falas em experiências concretas, e ao mesmo tempo, traduzir as experiências concretas em falas sobre o Reino de Deus. Podemos dizer que as parábolas e as falas de Jesus seriam uma espécie de milagres em palavras, e os milagres uma espécie de parábolas em ação.

Dessa forma, ao enviar os discípulos de dois em dois, Jesus parece remeter à noção de que o Reino de Deus é sempre anunciado com o Outro e para o Outro. Não há Reino de apenas um homem só, mas ele é sempre permeado pela companhia na caminhada. O Eclesiastes já coloca essa noção para nós quando fala que “melhor serem dois do que um” (Ec. 4,9), e Jesus aponta nessa mesma direção ao enviar os discípulos acompanhados para a proclamação do Reino. Ao enviar os discípulos de dois em dois, Jesus dá a oportunidade para que os próprios discípulos exerçam entre si o amor sobre o qual ouvem diariamente. Eles precisarão conviver durante uma longa viagem juntos, e isso é um grande momento para que os laços entre eles se estreitem. A vivência que tal viagem proporcionaria valeria muito mais que inúmeras falas de Jesus sobre amor ao próximo.

Realmente a viagem empolga muito os discípulos, que retornam comentando o que experienciaram e como as pessoas os ouviam e os “espíritos se submetiam”. Tudo isso com certeza gerou muita alegria, no entanto, logo depois eles se deparam com uma demanda extremamente urgente e específica que é uma multidão de 5 mil homens demandando comida. Sem muito o que saber o que fazer eles recorrem a Jesus que lhes diz prontamente “Dei-lhes vós mesmos de comer”, ou seja, a responsabilidade de suprir as demandas do povo não poderia recair apenas sobre Jesus, mas os discípulos deveriam tomar sobre si a responsabilidade; e nesse sentido, a experiência que tiveram enquanto evangelizavam deveria tê-los preparados para se tornarem maduros.

Algo interessante que podemos ressaltar é que o outro com quem caminhamos é uma possibilidade dada por Deus de experienciar o ser humano, e ao mesmo tempo o próprio Deus. No entanto, isso pode nos fazer aproximar de Deus ou nos afastar dele. Basta lembrar que no final do capítulo 9 de Lucas os discípulos ainda estão preocupados em saber “quem é o maior no reino de Deus”. Caminhar junto deve nos levar a uma maturidade que se prolonga para além da própria caminhada, ou para além do momento em que estamos juntos e reunidos, do contrário isso acaba se tornando apenas uma reunião de forte cunho emocional, mas que não traz nada de efetivo nem para o mundo e nem para o próprio sujeito.

Antes do milagre da multiplicação dos pães há uma séria pergunta de Jesus sobre a forma como a qual os discípulos o viam. Ou seja, uma pergunta sobre a identidade de Jesus diante dos discípulos. Isso implica que a forma como vemos e entendemos Jesus muda drasticamente a forma como respondemos ou não o seu chamado. Podemos perfeitamente cair em uma espécie de ativismo cego em que apenas nos empolgamos na companhia dos irmãos e experienciamos coisas fantásticas (expulsão de demônios, curas, etc, como também os próprios discípulos na experiência da transfiguração), ou podemos refletir seriamente no que Jesus representa para nós antes de sairmos por aí buscando apenas experiências várias vezes vazias de sentido. Para que sejamos capazes de alimentar àqueles que nos pedem o que comer é preciso antes estarmos bem alimentados e bem fortalecidos no conteúdo daquilo que cremos. A fé que possibilita a alimentação dos outros deve primeiro passar por mim e ser capaz de me alimentar.  

Dar aos outros o que comer implica assumir para mim a responsabilidade e a maturidade de acolher a proposta de Jesus e me enxergar como alguém a serviço do reino. Diante da demanda prática do mundo da vida toda a questão de saber "quem é o maior no Reino dos céus" perde o seu valor. É só a partir da demanda prática do mundo da vida é que a resposta de Jesus faz sentido ao dizer que o menor deles é o maior no Reino. A lógica que Jesus propõe inverte a polarização criada pelos discípulos. O mundo da vida com suas demandas exige o trabalho conjunto, exige o cuidado de todos para com todos para que todos tenham o que comer. 


terça-feira, 4 de julho de 2017

A noção de infinito em Giordano Bruno




O tema do infinito é por si só muito grande para ser tratado de uma forma geral, e acredito que nós como seres finitos, não poderemos nunca ter uma concepção certa a respeito deste tema. A discussão sobre o infinito é um tema bastante antigo e vemos a referencia a este tema desde os poemas de Homero e Hesíodo. Alguns filósofos também trabalharam a questão do infinito em seus escritos, e todos eles buscaram conceber a ideia de infinito dentro de um contexto que lhes eram inerentes. 

Vemos que o tema do infinito permeia toda a história da filosofia; desde os primeiros escritores gregos até os dias de hoje. No entanto a concepção de infinito que mais perdurou foi a ideia Aristotélica de que o infinito coincidiria com o vácuo. “Tudo aquilo que existe tem um lugar” afirmava Aristóteles. Portanto a concepção de algo pudesse existir sem ter em si um lugar era algo inconcebível dentro do contexto do renascimento. A visão que perdurava era a de que o universo era algo que continha todas as coisas e que não era contido por nada. Seria portanto como um vaso que contém várias coisas dentro dele, mas ele mesmo não é contido por nada.

Durante o renascimento o tema do infinito também gerou muita discussão, e levou vários filósofos à morte, dos quais o mais conhecido é Giordano Bruno. Giordano Bruno apresenta uma dura crítica à posição Aristotélica sobre o infinito. Tentarei neste pequeno texto expor as idéias de Giordano sobre o infinito e considerar em que aspectos ela se difere da posição Aristotélica.

Giordano, começa seu texto sobre o infinito colocando as posições que estavam em discussão em seu tempo. Como que o universo pode ser infinito ou finito? Por meio de quatro amigos que irão discutir o assunto Giordano coloca a sua posição sobre o infinito.Giordano acreditava que o infinito existia, ao contrário do que pensava Aristóteles, mas ele não poderia ser percebido pelos sentidos mas somente pela razão; os sentidos serviriam apenas para estimular a razão pois a verdade não está nos sentidos. Segundo Aristóteles, o mundo se encontra em si mesmo, e não em algum lugar, sendo assim, o mundo se encontra em lugar nenhum.

Giordano acreditava que fora do convexo do primeiro céu, deveria haver alguma coisa aonde o mundo estaria subsistindo. Giordano coloca que, se o mundo se encontra em Deus, fica da mesma forma difícil de explicar como que uma coisa que não é dimensionada pode estar contida em algo não dimensionado. É interessante, que a questão que se coloca aqui, é uma concepção aristotélica de que aquilo que existe tem obrigatoriamente que ter um lugar, escapando assim da noção de vácuo. O que Giordano coloca em questão é que o mundo não necessariamente precisa estar contido em algum lugar, supondo a existência de um vácuo, onde esse mundo estaria existindo. 

“É ridículo afirmar que alem do céu não exista nada, e que o céu existe por si mesmo.” ².

Essa frase expõe a posição de Giordano sobre o a condição do mundo; O problema exposto por Giordano consiste no fato de que provar o que está dentro, não prova que não exista nada do lado de fora. Giordano coloca a questão do vácuo em xeque quando coloca que ao admitir que além do convexo do primeiro céu não há nada, isso implica em aceitar um vácuo que seja informe e limitado deste lado em que se encontra o universo. Cai-se no mesmo problema, pois como que o vazio pode conter um corpo continente?

Essa pergunta se refere ao conceito aristotélico, de que aquilo que existe, só existe se estiver em algum lugar. O que Giordano coloca é que se eu afirmo que fora do mundo existe o nada, e no nada, qualquer coisa pode existir, pode haver outros planetas iguais ao nosso. O que Giordano diz nesta altura do diálogo é que o vácuo não tem como repelir nem receber um planeta, sendo assim a nossa razão tem como conceber a ideia de um universo infinito com outros planetas que lhes são subjacentes. A discussão agora se coloca na questão da plenitude do universo. Se assumirmos que ele é auto-suficiente pelo fato de fazer o que precisa, é bastante razoável que o universo seja pleno. “Onde não existe nada, nada lhe pode ser contrário” ³ . Giordano coloca aqui, que esse mesmo mundo que existe neste espaço o qual estamos chamando de perfeito, poderia existir em outro espaço, que se fosse o qual, também o chamaríamos de perfeito. O nada portanto dá essa amplitude de poder colocar tudo dentro dele. Sendo assim Giordano conclui que “O universo será de dimensão infinita e os mundos serão inumeráveis”.

Feito essa asserção sobre o infinito das coisas corpóreas, começa-se a discutir a noção de Deus, dentro desse contexto de infinito. É importante ressaltar que a visão tomista de diferenciação entre infinito, absoluto era aceita. Segundo o tomismo Deus não poderia ser infinito pelo fato de no infinito sempre se pode acrescentar algo, dando a ideia de uma coisa imperfeita; e em Deus não pode ser concebida a ideia de imperfeição. Giordano afirma que é necessário que para a forma divina haja um simulacro infinito no qual todas as coisas infinitas existiriam nele. Há aqui um indício da discussão que tomaria um rumo mais analítico no século XX, que é a teoria dos conjuntos infinitos, que conteria infinitas coisas dentro do sistema. Uma discussão interessante sobre o tema pode ser encontrado no livro "Lógica dos mundos" de Alain Badiou.

Giordano afirma que assim como existem vários graus de perfeição para explicar a excelência divina, assim também deve haver infinitos animais, que para os conter seriam necessários infinitos mundos, e como conseqüência um espaço que seja infinito, o qual é contido dentro de um ser divino que também deve ser infinito. Percebe-se assim uma teia onde ilustra um conjunto de conjuntos infinitos. Não podemos dizer que esse mundo poderia ser considerado perfeito dentro da esfera que ele mesmo alcança, pois possui uma certa perfeição das coisas. Este conceito, Giordano afirma que podemos dizer, mas não podemos provar, pois não temos conhecimento sobre os outros mundos, para dizer que aquilo que temos aqui seja realmente o que há de perfeito. Com essa argumentação Giordano acaba com a noção de lugar como concebida por Aristóteles e seus discípulos. A noção de mundo como algo que contém todas as coisas e não é contido por nada é totalmente descartada por Giordano.

O argumento de Giordano passa para a esfera do religioso, e a ideia de Deus surge a partir desse ponto da discussão. O universo infinito é tido aqui como fruto de um ser infinito que o fez assim pelo fato de ser melhor do que faze-lo finito. O argumento de Giordano se pergunta por que Deus faria o universo finito sendo que ele poderia te-lo feito infinito, uma vez que para a divina potência que pode fazer todas as coisas, o fazer infinito ou finito é a mesma coisa. Por que Deus preferiria limitar sua magnitude ao criar algo finito e não expandi-la, mostrando assim ser um pai fecundo, gracioso e belo?

A potência divina tem, portanto, a necessidade de criar novos mundos para escapar do vácuo. O que é infinito não pode fazer outra coisa senão aquilo que faz, e isso que faz é infinitamente pré estabelecido. Após essa discussão que foi brevemente tratada aqui, passo a discutir agora a noção de primeiro princípio que move as coisas e que é uma discussão antiga que vem desde os pré-socráticos e foi tratada também por Aristóteles, o qual concebeu a idéia de primeiro motor.

Segundo Aristóteles, esse primeiro motor seria aquilo que move o mundo e não é movido por nada. O que Giordano coloca em questão é que o primeiro motor não move o universo, mas sim que ele dá o poder ao universo para que ele se mova pela sua própria alma. O universo então possui dois princípios ativos de movimento: um que é finito que age segundo a razão e o outro infinito que age segundo a razão da alma do mundo.
Neste pequeno esquema do texto de Giordano Bruno, podemos dizer que o infinito como concebido por ele, é uma necessidade de ordem divina e de ordem lógica, pois o universo finito seria uma afronta a ideia de um Deus infinito que cria coisas conforme ele quer. Limitar o universo é limitar o poder de Deus, o que é algo inconcebível dentro do contexto social do renascimento onde Giordano está inserido. Por causa dessa afirmação de outros mundos, universo infinito, e demais coisas é que Giordano Bruno foi morto em 1600 pela igreja queimado em uma fogueira.

O texto de Giordano Bruno, caso queiram ler pode ser encontrado na seguinte edição: 


BRUNO, Giordano- Os Pensadores : Sobre o infinito, o universo e os mundos. Pag. 17 Tradução de Helda Barraco, Nestor Deola, Aristides Lobo – 2ª edição- São Paulo – Abril Cultural, 1978.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Run, baby, Run !






Lembro de Freud quando ele dizia que o chiste, o humor se constitui como uma grande forma de defesa do inconsciente diante daquilo que lhe parece estranho. Essa talvez seja uma chave de leitura interessante para ler a dinâmica evidenciada hoje do "se nada der certo" da escola particular no RS.

A questão que paira no fundo, a meu ver, não é apenas a do menosprezo típico do capitalismo diante das profissões consideradas menores exemplificadas pelos alunos na escola, nem mesmo a questão da distância que separa estruturalmente a classe média dessas profissões. A meu ver o ponto de fundo é muito mais óbvio do que parece e é igual aquela piada do homem de quem se suspeitava que ele roubava mantimentos de uma determinada obra, e por isso, todo dia antes dele sair da obra os guardas fiscalizavam minuciosamente tudo que ele estava levando dentro do carrinho de mão e nunca encontravam nada, até que muito tempo depois descobriram que o homem estava roubando exatamente os carrinhos de mão da obra. 

Assim como a questão do carrinho a questão aqui soa muito mais óbvia do que parece. O outro com toda a sua complexidade, com toda a sua diferença, com tudo aquilo que não sou eu sempre se coloca como núcleo traumático para o sujeito de forma que a única forma encontrada para lidar com ele é por meio da sua ridicularização. O chiste se coloca como alternativa para lidar com o estranho que habita o próprio sujeito, mas que confortavelmente é visto como algo apenas externo a ele. Ou seja, o chiste é a forma "capenga" do sujeito lidar com aquilo que Lacan chamava de Real.

O que está em jogo é o medo da classe média de que aquele outro assuma o lugar do protagonismo que está totalmente dedicada a ela. Esse outro menosprezado só pode aparecer sob a forma do cômico, do satirizado, sob a forma do "erro". A partir do momento em que se coloca nesse outro uma noção de dignidade a baliza que localiza o sujeito da classe abastada se rompe e o seu mundo perde o sentido. Aqui não se coloca apenas a noção de privilégio da classe média, mas, assim como no caso do carrinho de mão, o segredo está a vista o tempo todo, ou seja, não se trata de uma relação entre classe média e classe mais baixa, mas sim um círculo vicioso que envolve a classe média em torno de si mesma. 

É bem sabido que a nossa classe média padece do grande problema da ausência de consciência de classe, ou seja, ela não é consciente da sua condição na estrutura de funcionamento do capital e por isso ela é capaz de ver o diferente como alguém "que não deu certo". Dar certo é reproduzir o mesmo modo de produção perpetuado dentro de si sem nenhum tipo de abertura para a dimensão do outro. A classe média se torna monádica, sem abertura, fechada em si mesmo de forma que o "nada" do "nada der certo" é universalizado na condição de impossibilidade. Ao mesmo tempo a forma cínica como tal evento é tratado evidencia o abismo entre a realidade do fato e o Real que ele esconde.  

Não é pouco sintomático o fato do episódio ter acontecido dentro de uma escola, afinal, a escola na maioria das vezes reproduz a infraestrutura econômica, a não ser que haja um esforço grande por parte dos professores para tentar contornar a relação intrínseca entre infra e superestrutura no processo educacional. Não é preciso dizer que na maioria das vezes esse tipo de tentativa é pouco profícuo. A escola então evidencia esse lugar onde a classe média pode esconder o seu preconceito de forma visível e ao mesmo tempo disfarçado de "lúdico", "atividade pedagógica", etc. O movimento ideológico se torna visível no episódio tipificado hoje no RS e a sua obviedade se mostra muito mais complexa do que aparenta, por isso é preciso refletir seriamente quando estas coisas acontecem, pois o que o óbvio esconde várias vezes é muito mais perigoso do que o que ele revela. 

A fuga da questão de fundo é sintomática, pois a partir do momento que as análises se concentram apenas naquilo que está à mostra, o mais óbvio escapa, o movimento ideológico por trás da questão se coloca como uma neblina que impede de ver o quadro todo. Ao mesmo tempo que a neblina é o que se faz mais presente e nos envolve é ela mesma a que impede que vejamos o que precisamos ver. A ideologia faz exatamente esse papel de esconder o objeto enquanto se mostra o tempo todo. 



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Pascal - A miséria e a grandeza humana




Blaise Pascal nasceu em Clermont-Ferrand em 19 de junho de 1623, e era filho de Étienne Pascal e Antoinett Bégon. Pascal desenvolveu bastante seu lado religioso e escreveu várias coisas que defendiam o cristianismo. Sua obra filosófica mais conhecida são “os pensamentos” onde Pascal faz uma apologia ao cristianismo, e expõe suas idéias sobre vários assuntos que vão desde o homem até Deus. Ele foi bastante influenciado pelo pensamento de Descartes, pensamento esse, que foi um pouco contestado em sua obra. Pascal possuía também um conhecimento extenso da filosofia grega antiga e as de sua época. Sobre a filosofia grega, Pascal cita Epiteto e a filosofia estóica. Sobre a filosofia de sua época, ele cita Montaigne e Descartes como citado acima. Pascal se preocupava muito com o homem e sua relação para com Deus.
A questão da antropologia pascaliana é um tema de muito estudo para aqueles que  se dedicam a estudar os pensamentos de Pascal, pois ele trata a questão de uma forma bem particular dentro do contexto de sua obra. O problema da miséria e grandeza do homem é o que será tratado neste trabalho usando como base  os próprios pensamentos de Pascal.
Para ele, a questão da miséria e da pobreza está inteiramente ligada com a natureza humana. Segundo Pascal, o homem possui duas naturezas. A primeira natureza seria aquela que o homem teria antes de sua queda no Paraíso. Pascal considera o homem como um ser criado por Deus e que pela cobiça foi condenado a sair do Jardim do Éden e com isso perdeu o convívio direto com Deus. Para Pascal , com essa queda, o homem passou a agir de acordo com sua segunda natureza, que é totalmente corruptível e capaz de fazer tudo aquilo que é mal. A queda do homem gera nele uma insatisfação por ter perdido o seu contato íntimo com Deus. Pascal considera o homem destituído de Deus, e só pode retornar a Ele por meio da graça salvadora de Deus.
Pascal difere de forma bastante clara a primeira e a segunda natureza. Para ele a marca da primeira natureza é o conhecimento do dever e o da segunda natureza é o fato de ele não conseguir realizar isso por ele mesmo, somente pela graça.
A questão da grandeza do homem está em reconhecer sua miséria sem Deus. O homem tenta preencher esse vazio que é sua vida sem Deus através das vaidades, criando com isso uma realidade que não é real. Pascal não chega a negar a vida terrena, mas ele coloca em vários de seus pensamentos que a eternidade, que é uma busca do homem é mais importante do que o curto espaço de tempo a que estamos destinados a viver. Nisso também reconhece-se a nossa miséria, no fato de sermos limitados em nossa justiça e em nossa moral.
Para Pascal, a nossa miséria, nos faz dar mais importância a coisas que não são tão importantes assim, segundo ele, queremos ser justos, mas como seres miseráveis que somos, nossa justiça não passa de trapos de imundícia.
Pascal intercala a miséria com a grandeza. O homem é grande porque pensa, e através deste pensamento ele consegue  se compreender e compreender o mundo que o cerca. Conhecer-se miserável, é ser grande. O pensamento torna o homem grande, e por esse pensamento podemos entender conhecimento.
Para Pascal aquilo que é natureza dos animais, no homem é o símbolo de sua miséria, pois o homem decaiu de uma natureza melhor e vive em uma natureza inferior. O homem só se sente infeliz  porque um dia já foi feliz. Por isso a insatisfação do homem. O homem está sempre insatisfeito porque busca sua união com Deus que foi perdida com a queda. Essa queda provocada pelo orgulho  e desobediência de Adão. Pascal se apropria de muitos textos bíblicos para justificar suas proposições a respeito do ser humano; essa posição mostra sua preocupação em colocar Deus acima do homem e esse homem totalmente dependente de Deus. O homem não possui uma “razão” mas que tudo o que ele possui vem de Deus, e que só ele pode fazer com que o homem possa alguma coisa.
Segundo Pascal, o homem sempre esta em busca de Deus, e é isso que o torna insatisfeito, ele por si só não consegue alcançar a Deus. Mas Deus pela sua graça, se revela ao homem e o faz vê o quanto o homem é miserável. O paradoxo da grandeza se estabelece nesse momento, pois o fato do homem reconhecer que ele por si só não consegue alcançar a Deus, se vendo assim, como um ser miserável, o torna grande; pois os animais não possuem essa consciência. Segundo Pascal, o homem que não conhece sua miséria, em nada difere do animal.
O homem, portanto, para preencher esse vazio deixado da queda no qual ele perdeu o seu contato com Deus, começa a se ater em coisas vãs, as quais Pascal cita como vaidade. A vaidade, é em si algo que não tem nenhum valor, e por isso ela é fácil de ser usada como máscara, o preenchimento se baseia em se encher de algo, que no caso do homem geralmente é preenchido por algo sem valor que não passa simplesmente de uma busca por Deus, no sentido em que , tudo que o homem quer é voltar para Deus. Pascal coloca essa questão de forma bem clara, quando afirma que a segunda  natureza do homem é totalmente dependente de Deus, por ser corruptível.
O problema da miséria e da grandeza do homem é uma assunto de várias abordagens de Pascal, e ele coloca isso de várias maneiras. Segundo Pascal, o homem é um meio termo entre o nada e o infinito; pois se comparado ao nada, ele é tudo; se comparado ao grande ser universal, ele é nada, ele é portanto um meio termo nessa relação que ele estabelece com Deus e com a natureza.
Tendo visto essas coisas, podemos definir a grandeza do homem como a consciência de sua miséria, é isso que o faz diferente dos animais. O homem insensato para Pascal é aquele que ainda não teve ainda a consciência de sua miséria, e busca no divertimento, ou na imaginação uma fuga de seus problemas, ficando dessa forma, alheio de sua real condição e tenta viver uma falsa felicidade que no final das contas verá que não passa de mera fascinação com aquilo que não o deveria preocupar tanto, que é essa vida terrena. O homem deve portanto através do pensamento atingir a consciência de sua miséria, e só assim ele poderá ser feliz e viver bem.

Essa vida só tem sentido, quando aquilo que se faz, é feito por amor a Deus e a ninguém mais. Pascal, afirma que o homem precisa de Deus, e só pode fazer as coisas que ele faz se Deus o estiver agraciando. O homem é, portanto, um ser que ao mesmo tempo tem uma diferença singular dos outros animais, pois é o único que pode ter a consciência daquilo que ele realmente é, tornando-se assim grande, e não passa também de um ser que em vários aspectos se assemelha aos animais, pois ele é perecível por causa da sua desobediência. O homem devido a sua antiga natureza torna-se insatisfeito e busca preencher essa falta de várias formas, e geralmente em coisas vãs. A única solução para o ser humano, segundo Pascal é refugiar-se em Deus. Vemos aqui uma forte influência do pensamento agostiniano, que afirma que o homem deve se refugiar em Deus. Fonte de vida e esperança; segundo Pascal, o homem só busca a Deus porque ele ainda não o encontrou, e é isso que dá sentido a vida do homem, essa busca pelo infinito onde realmente somos o que somos.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Eclesiastes 3,1-8. Com tempo, sem télos !





No capítulo 3 de Eclesiastes há os conhecidíssimos versículos em que o Qohélet nos afirma que há tempo para todo propósito debaixo do sol e por meio de vários ciclos de morte e renascimento nos conduz a repensar a nossa relação com o tempo. Relação essa cada vez mais tumultuada, cada vez mais difícil de aprender dadas as inúmeras coisas que arrumamos para fazer durante o dia, durante a semana. Na maior parte das vezes nem temos tempo para refletirmos sobre como usamos o nosso tempo. 

As coisas seguem como uma grande avalanche levando consigo todas as coisas e nos levando juntamente com ela. Refletir sobre o tempo é um exercício que deveríamos fazer com mais frequência. Como diz o Eclesiastes, há tempo de nascer e morrer, plantar e arrancar o que se plantou, etc. Entender o ciclo das coisas, o ciclo da natureza é primordial para que no entendamos também. O ciclo da natureza do versículo 1 se liga às nossas ações no versículo 2, que se liga às nossas emoções tratadas no versículo 3, etc.  

O que o Eclesiastes nos mostra nesses 8 versículos em que nos elucida a questão do tempo é que por mais que tentemos abarcar todas as coisas, a circularidade do tempo é algo que nos manterá para sempre preso a ele. Não há uma finalidade em si para as coisas que acontecem debaixo do sol. Elas funcionam em ciclos que vão e vêm.  Talvez não seja fácil perceber, mas aqui há uma crítica grande à noção de linearidade tão comumente aceita pela tradição judaica. O fato do texto ter sido escrito no século 2 a.C aponta para uma possível influência de algumas escolas helênicas tais como o estoicismo e o ceticismo. O autor do texto aponta para um constante devir das coisas que acontecem debaixo do sol, tanto que logo após tal reflexão o versículo 9 nos aponta: "Que proveito tem o trabalhador naquilo que trabalha"? 

Não há a dimensão de um "télos" (finalidade) na passagem do tempo segundo o autor do texto; o que vemos são as coisas acontecendo em ciclos de nascimentos e mortes, ações e des-ações e compreender isso nos coloca em uma posição mais tranquila diante do mundo. Primeiramente porque nos ensina a não nos perturbarmos em querer fazer coisas desesperadamente, em segundo lugar por mostrar que o tempo que temos é sempre o ideal para fazermos tudo aquilo que é importante para ser realizado. Se todas as ações do homem não encontram um "télos", todas elas podem ser executadas no tempo que temos debaixo do sol. Até a guerra e a paz se encontram nesta circularidade temporal. Nada escapa ao passar do tempo e todas as coisas se complementam à medida que o tempo passa. 

O Qohélet aponta que o tempo é aquilo que rege as ações debaixo do sol e debaixo do sol é o tempo para fazer todas as nossas ações já que depois dele nada mais haverá para fazer. Para além de toda moralidade simplória o ciclo do tempo coloca para nós que há o "tempo de matar", "o tempo de odiar", etc. i.e, a vida que ocorre debaixo do sol é uma vida muito ampla, difusa, complexa de forma que toda tentativa de um "télos" pré-ordenado se mostra comprometida. Esta conclusão está em total consonância com o teor do livro do Eclesiastes que será capaz de, apesar de toda ausência de finalidade da vida, afirmar a alegria e a crença na figura de Deus. 

A reflexão sobre o tempo proposta pelo Qohélet é essencial para os nossos dias, para que não nos deixemos levar pelas dinâmicas da vida contemporânea que nos sugam o tempo e nos fazem perder as pequenas alegrias do "tempo de abraçar", "tempo de dançar", "tempo de amar". Se há tempo para todo propósito debaixo do sol, que nos esforcemos para que as pequenas alegrias encontrem tempo em nossas vidas e nos façam viver melhor com os outros e conosco. A grande tentação do nosso tempo é que sempre precisamos estar para além do tempo que temos debaixo do sol. Sofremos pelo passado que não fizemos, pelo futuro do qual não temos nenhum controle e enquanto isso o momento fugaz do presente vai passando sem que nos apercebamos que deixamos de lado os abraços, os amores, as alegrias, etc. "Tempus fugit" já diziam os latinos, e é exatamente para que o tempo não fuja que o Qohélet nos aponta para a nossa relação com o tempo. A circularidade do tempo aponta para a sua infinitude, mas ao mesmo tempo nos mostra que nós somos finitos e por isso precisamos ter em mente que há sempre tempo para todo propósito debaixo do sol mesmo sem um télos para dar sentido às nossas ações.